Aprendendo a se informar...

Informar, discutir e criar numa perspectiva de diálogo entre sujeitos e saberes, visando à promoção da cidadania com base na liberdade de investigação científica e na dignidade da pessoa humana. Visite também: http://clinicadotexto.wordpress.com/

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

“Se Deus não existe, então tudo é permitido” - Dostoievski


Sobre a obra
: Crime e castigo

Uma novela policial que ultrapassa de longe a fronteira de seu gênero. Um estudante de direito sem dinheiro, inquilino de uma agiota, com uma irmã à beira de um casamento por interesse e uma mãe passando necessidades. O fermento para um possível crime está armado e é nesse drama que mergulha o personagem Rodion Raskolnikov.

A cada capítulo, uma revelação e um mote para um dos debates mais antigos da humanidade: existe o direito de matar?

Publicado em 1866, o livro "Crime e Castigo" foi sucesso imediato na Rússia e acabou alcançando rapidamente o status de um dos clássicos da literatura mundial.

Sobre o autor: Dostoiévski

No dia 11 de novembro de 1821, em Moscou, nasceu Fiódor Mikhailovich Dostoiévski, um dos mais célebres escritores da humanidade e considerado um dos pais do existencialismo. Estudou em escola militar e tinha epilepsia, à semelhança do escritor brasileiro Machado de Assis.

Tradutor e desenhista, foi preso por agitação social em 1849 e condenado à morte. Já no patíbulo, prestes a ser enforcado, a sua pena foi comutada por quatro anos em um presídio na Sibéria.

Aclamado em vida pela crítica literária da época, Dostoiévski morreu no dia 9 de fevereiro de 1881 em São Petesburgo.

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Fonte:http://www.livroclip.com.br/index.php?acao=hotsite&cod=6#


Comentário “EducaRede”

Uma das obras mais conhecidas de Dostoiévski, esse livro conta a história de Raskólnikov, um jovem estudante de São Petersburgo (Rússia) que abandona a faculdade por falta de dinheiro. A família e amigos convivem com a miséria e a falta de perspectiva, tendo de submeter-se a situações humilhantes para sobreviver. Para se manter, Raskólnikov apela para a penhora de pequenos objetos de estimação familiar que negocia com Aliena Ivanóvna, uma velha e impiedosa usurária.

Homem extremamente sensível e erudito, Raskólnikov cria a teoria do crime permitido, baseado em uma divisão das pessoas em “ordinárias” e “extraordinárias”. Ao analisar os grandes assassinos da História, entre os quais inclui Napoleão, chega à conclusão de que certos assassinatos, quando executados por pessoas “extraordinárias”, acabam beneficiando a sociedade. Decide, com base nessa teoria própria, fazer um bem à sociedade matando a velha usurária que o explora.

Todo o livro, então, passa a contar o sofrimento do nosso herói, advindo da idéia desse assassínio. Muitos personagens se mesclam à trajetória de Raskólnikov, e a interação entre eles se dá por uma das marcas do estilo de Dostoiévski, a polifonia. Trata-se de uma engenhosa arquitetura de vozes que se provocam, sondam-se mutuamente, antecipam réplicas.

Crime e Castigo foi escrito na fase madura do escritor, cujas reflexões filosóficas e experiência literária aparecem em sua melhor forma. A única tradução do livro direta para o português do Brasil saiu em 2001, pela editora 34. Mas há várias outras boas traduções para a nossa língua.

Fontes consultadas

Café Dostoiévski: http://www.cafedostoievski.pop.com.br/dostoievski/index2.html, visitado em 08/02/2006.

BEZERRA, Paulo. “Nas sendas de Crime e Castigo”. In: Crime e Castigo, Fiódor Dostoiévisk, São Paulo: Editora 34, 2001.

ARBAN, Dominique. Dostoievski. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1989.

EDUCAREDE. Disponível em http://www.educarede.org.br/educa/index.cfm?pg=biblioteca.interna&id_livro=182

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terça-feira, 4 de novembro de 2008

HINO AO SONO, Castro Alves


Ó Sono! Ó noivo pálido
Das noites perfumosas,
Que um chão de nebulosas
Trilhas pela amplidão!
Em vez de verdes pâmpanos,
Na branca fronte enrolas
As lânguidas papoulas,
Que agita a viração.

Nas horas solitárias,
Em que vagueia a lua,
E lava a planta nua
Na onda azul do mar,
Com um dedo sobre os lábios
No vôo silencioso,
Vejo-te cauteloso
No espaço viajar!

Deus do infeliz, do mísero!
Consolação do aflito!
Descanso do precito,
Que sonha a vida em ti!
Quando a cidade tétrica
De angústia e dor não geme...
É tua mão que espreme
A dormideira ali.

Em tua branca túnica
Envolves meio mundo.
E teu seio fecundo
De sonhos e visões,
Dos templos aos prostíbulos
Desde o tugúrio ao Paço,
Tu lanças lá do espaço
Punhados de ilusões!...

Da vide o sumo rúbido,
Do hatchiz a essência,
O ópio, que a indolência
Derrama em nosso ser,
Não valem, gênio mágico,
Teu seio, onde repousa
A placidez da lousa
E o gozo de viver...

Ó sono! Unge-me as pálpebras..
Entorna o esquecimento
Na luz do pensamento,
Que abrasa o crânio meu.
Como o pastor da Arcádia,
Que uma ave errante aninha...
Minh'alma é uma andorinha...
Abre-lhe o seio teu.

Tu, que fechaste as pétalas
Do lírio, que pendia,
Chorando a luz do dia
E os raios do arrebol,
Também fecha-me as pálpebras...
Sem Ela o que é a vida?
Eu sou a flor pendida
Que espera a luz do sol.

O leite das eufórbias
P'ra mim não é veneno...
Ouve-me, ó Deus sereno!
Ó Deus consolador!
Com teu divino bálsamo
Cala-me a ansiedade!
Mata-me esta saudade,
Apaga-me esta dor.

Mas quando, ao brilho rútilo
Do dia deslumbrante,
Vires a minha amante
Que volve para mim,
Então ergue-me súbito...
É minha aurora linda...
Meu anjo... mais ainda...
É minha amante enfim!

Ó sono! Ó Deus noctívago!
Doce influência amiga!
Gênio que a Grécia antiga
Chamava de Morfeu,
Ouve!... E se minhas súplicas
Em breve realizares...
Voto nos teus altares
Minha lira de Orfeu!


Fonte: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=86837

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Safo de Lesbos: Rósea lua que supera todas as estrelas... Tua beleza mata a minha sede

Safo era maravilhosa pois em todos os tempos que temos conhecimento não sei de outra mulher que a ela se tenha comparado, ainda que de leve, em matéria de talento poético. (Estrabão)

Há quem afirme serem nove as musas. Que erro!
Pois não vêem que Safo de Lesbos é a décima?
(Platão)

Sobre “a poetisa”

A poetisa grega Safo (Psappha - como a própria assinava no dialeto eoliano) nasceu em 612 a.C. na ilha de Lesbos. Foi reconhecida por sua beleza e talento por filósofos como Sócrates e Platão. Boa parte de seus versos glorificava a homossexualidade, fato que fez cristãos destruírem grande quantidade de seus escritos, por se acreditar que as suas poesias eram imorais. As jovens mulheres da ilha de Lesbos que freqüentavam seu círculo literário – de forma a serem iniciadas nas artes da dança, da poesia, da música e também do amor –, compunham o seu círculo de amizades. Formadas por ela, essas jovens a deixariam um dia para se casar.

Escola de hetairas: as cortesãs gregas


Concebeu Safo uma escola para moças, onde lecionaria a poesia, dança e música - considerada a primeira "escola de aperfeiçoamento" da História. Ali as discípulas eram chamadas de hetairai (amigas) e não alunas... E a mestra apaixona-se por suas amigas, todas... dentre elas, aquela que viria a tornar-se sua maior amante, Atis - a favorita, que descrevia sua mestra como vestida em ouro e púrpura, coroada de flores. Mas Atis apaixona-se por um moço e, com ciúmes, Safo dedica-lhe os versos:
Semelhante aos deuses parece-me que há de ser o feliz
mancebo que, sentado à tua frente, ou ao teu lado,
te contemple e, em silêncio, te ouça a argêntea voz
e o riso abafado do amor. Oh, isso - isso só - é bastante
para ferir-me o perturbado coração, fazendo-o tremer
dentro do meu peito!
Pois basta que, por um instante, eu te veja
para que, como por magia, minha voz emudeça;
sim, basta isso, para que minha língua se paralise,
e eu sinta sob a carne impalpável fogo
a incendiar-me as entranhas.
Meus olhos ficam cegos e um fragor de ondas
soa-me aos ouvidos;
o suor desce-me em rios pelo corpo, um tremor (...)
Atis, sua amiga e aluna predileta, foi retirada da Escola por seus pais. Indignada, Safo escreve que "seria bem melhor para mim se tivesse morrido":

fr.74 R

Pôs-se a lua

e as Plêiades; é meia

noite, passa a hora

e eu sozinha estou deitada

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Safo, por Olimar F. Júnior

fr. 1 V

Imortal de colorido trono, Afrodite,

filha de Zeus, ardilosa, suplico-te,

não me submetas com gemidos nem angústias,

senhora, o coração.

Mas vem cá, se uma vez

os meus lamentos ouvindo de longe

atendias e, deixando do pai o palácio

dourado, vieste

com a carruagem atrelada: belos te conduziam

ligeiros pardais ao redor da terra negra,

espessas asas agitando do alto,

pelo meio do céu

depressa avançavam. E tu, ó bendita,

sorridente com a imortal face

perguntaste por que sofri

por que chamei

e o que, mais que tudo, quero cultivar

no meu louco coração: "quem, desta vez, pela persuasão

buscas conduzir para tuas relações mais íntimas? Quem,

ó Safo, te faz sofrer?

Pois se foge, rapidamente perseguirá.

Se nem presentes aceitava, logo dará.

E se não ama, rapidamente amará

mesmo não querendo.

Vem até mim também agora, alivia a penosa

aflição e quanto cumprir

meu coração deseja, cumpre: tu, assim,

sê minha aliada.

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Safo, por Jacyntho Lins Brandão

fr. 16 V (v. 1-4)
Uns de cavaleiros armada, outros de infantes,
outros de naus dizem sobre a terra negra
ser o mais belo - eu, aquilo
que alguém ama.

fr. 31 V
Parece-me aquele igual a deuses
ser, o homem que diante de ti
se senta e perto tua doce fala
escuta
e teu riso sedutor - o que, a mim,
o coração no peito dilacerou!
Pois com te olhar apenas, já nada falar
mais me é dado.
Faz-se minha língua em pedaços e, fino,
logo sob a pele um fogo corre.
Com os olhos nada vejo e ribombam-me
os ouvidos.
De mim suor frio escorre e um tremor
toda me prende. Mais verde que erva
estou - e bem morta, por bem pouco,
pareço...
Mas tudo é para ousar...

fr. 34 V
estrelas em volta da lua bela
de novo escondem a luminosa face
quando mais cheia ela brilha
sobre a terra


fr. 47 V
............................. E Eros sacode-me
as entranhas, como o vento de sobre o monte nos carvalhos caindo.

fr. 130 V
Eros de novo a mim, o soltamembros, agita,
doce amargo indomável animal.
Ó Átis: a ti, em mim, fez-se odioso
pensar - e para Andrômeda voas.

Leia a obra

http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=3449

Bibliografia

· LESBOS, Safo de. Poesia completa. Rio de Janeiro, 1990.
· ANTUNES, A. A. Safo: tudo que restou. Além Paraíba (MG): Interior, 1987.
· FONTES, J. B. Eros, tecelão de mitos: a poesia de Safo de Lesbos. São Paulo: Estação Liberdade, 1991.
· MALHADAS, D. & MOURA NEVES, M. H. Antologia de poetas gregos de Homero a Píndaro. Araraquara: FFCLAr-UNESP, 1976.
· SAFO DE LESBOS. Trad. P. Alvim. São Paulo: Ars Poetica, 1992.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

De sua poltrona ele governava o mundo: a metamorfose

Sobre a obra A metamorfose, de Franz Kafka

A Metamorfose é uma das mais conhecidas obras de Franz Kafka. Foi escrita em 1912, quando o autor tinha 29 anos.

Na história, um homem acorda transformado em um inseto e precisa aprender a lidar com a nova situação.

Trata-se de uma revelação do desespero humano perante o absurdo e opressão do mundo.



Sobre o autor

Franz Kafka nasceu em 3 de julho de 1883 na cidade de Praga, que na época estava sobre influência da monarquia austro-húngara. Era filho de um comerciante judeu, o que fez com que as culturas judaica, tcheca e alemã marcassem a sua formação.

Formou-se em Direito e exerceu cargos burocráticos durante a vida marcada pela solidão e por uma relação conturbada com o pai.

Além de A Metamorfose, outras obras célebres são “O Processo” (1925), "O Castelo" (1926), além de vários contos e diários, como “Carta ao Pai” (1919).

Suas obras são marcadas por uma atmosfera asfixiante e opressora, com situações de angústia que culminaram na criação do adjetivo “kafkiano”.

Kafka não obteve fama e sucesso com seus livros em vida, sendo a maioria editado postumamente por iniciativa do amigo Max Brod.

O escritor morreu em 3 de junho de 1924, vítima de tuberculose.

fonte: http://www.livroclip.com.br/?acao=hotsite&cod=5

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

PARA ALGUNS AMIGOS...

...

o som da esperteza
o som do céu e do mar.

o aperitivo de uma noite amarga.
amigos amargos que
discutem quem fará o elogio fúnebre,
semi-homens amargos tentando roubar suas mulheres,
semi-mulheres amargas se deixando roubar.

me levou 15 anos para humanizar a poesia
mas será preciso mais do que eu
para humanizar a humanidade.

as boas almas não irão fazê-lo
a anarquia não irá fazê-lo
pretos
amarelos
índios
latinos
eles não irão fazê-lo.

acredito na força da mão sangrenta
acredito no gelo eterno
eu exijo que nós morramos
de lábios azuis e sorrindo contra a impossibilidade
de nós mesmos
esticados sobre nós mesmos.

nos encontramos, uma vez,
numa adega escura de Barcelona, mas então
nos separamos. Afinal
algumas pessoas foderão um poste de luz sob
o luar.

meu elogio? quem o lerá? ao menos terei uma
sepultura? quem ficará feliz no meu
enterro? mais um maldito gênio se
foi. idiotas adoram enterrar
deuses.

enquanto isso esperam que minha máquina de escrever falhe,
que meu amor diminua, que minha esperança diminua,
que minha dor aumente.
ah, meus amigos todos me desejam o
melhor das coisas.

idiotas que discursam raivosos de porta em porta
venham todos
para jogar seu veneno especial sobre mim e sobre
as pequenas coisas que são
minhas.

pequenas crianças-rato do universo
aproveitem o fato de que eu vos permiti insultar-me
aproveitem o fato de que eu abri a porta
aproveitem o fato de que eu ou envelheci
ou desapareci com o tempo.

ah, meus amigos
meus amigos
meus amigos.

[by C. B., Trad. Especial para a Clínica do Texto]

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

DA TABA À ALDEIA GLOBAL: SEM FÉ... SEM REI... NEM LEI...

A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa, nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber.
[...]

Outros traziam carapuças de penas amarelas; e outros, de vermelhas; e outros de verdes. E uma daquelas moças era toda tingida de baixo a cima, daquela tintura e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições envergonhara, por não terem as suas como ela.

(Porto Seguro, Ilha de Vera Cruz, sexta-feira, 1o. maio de 1500 - Pero Vaz de Caminha)


Talvez, o dia 27 de agosto de 2008 seja sempre lembrado como a data em que impusemos uma segunda derrota aos infelizes indígenas da Terra brasilis. Não somos capazes de entender os segredos do outro, pois "o outro guarda um segredo: o segredo do que eu sou", já o disse Jean Paul Sartre. Quiçá, eu esteja enganado... A história é quem dirá. Leia a seguir entrevista do professor Viveiros de Castro, antropólogo do Museu Nacional da UFRJ, para quem os conflitos na reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, são a prova deste insuperável estranhamento que ainda conservamos em relação aos índios até os dias de hoje.



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'NÃO PODEMOS INFLIGIR UMA SEGUNDA DERROTA A ELES'
Por Flávio Pinheiro e Laura Greenhalgh, de O Estado de S.Paulo

SÃO PAULO - Eduardo Viveiros de Castro, professor do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é considerado "o" antropólogo da atualidade. Dele diz Claude Lévi-Strauss, seu colega e mentor, seguramente um dos maiores pensadores do século 20: "Viveiros de Castro é o fundador de uma nova escola na antropologia. Com ele me sinto em completa harmonia intelectual". Quem há de questionar o mestre frânces que, nos anos 50, sacudiu os pilares das ciências sociais com a publicação de Tristes Trópicos, relato de experiências com os índios brasileiros nos anos 30?


Pois muitos questionam Viveiros de Castro. E muitos o criticarão por esta entrevista ao caderno Aliás. Numa semana em que os conflitos entre índios e rizicultores (informalmente tratados de "arrozeiros"), lá na distante reserva Raposa Serra do Sol (Roraima), ganharam estridência e manchetes de jornais, o professor sai em defesa dos macuxis, wapixanas e outros grupos indígenas que habitam uma faixa de terra contínua de 1,7 milhão de hectares, palco de discórdias que sintetizam 500 anos de Brasil. A estridência ficou por conta de uma palestra do general Augusto Heleno, comandante militar da Amazônia, feita no Clube Militar do Rio de Janeiro. O general foi contundente: disse que a política indigenista é lamentável e caótica, ganhando imediata adesão de seus pares. Augusto Heleno, que chefiou a missão brasileira no Haiti, também bateu pesado ao reagir contra a decisão da Justiça que determina a saída dos não-índios da reserva: "Como um brasileiro está impedido de entrar numa terra porque ela é indígena? Isso não entra na minha cabeça."


Também não entra na cabeça de Viveiros de Castro que os indígenas possam ser vistos como ameaça à soberania nacional. Ao contrário, entende que eles contribuem com a soberania. Atribui tanta polêmica ao alto grau de desinformação em torno das reservas existentes no País e, em particular, da Raposa Serra do Sol. "As terras não são dos índios, mas da União. Eles têm o usufruto, o que é bem diferente. Já os arrozeiros querem a propriedade." O entrevistado contesta números, analisa o modelo de colonização da Amazônia e tenta desfazer discursos que, na sua opinião, são alarmistas. Mas é condescendente com o general: "Ele está sendo usado neste conflito. É claro que o Exército tem de atuar lá, defendendo nossas fronteiras. Mas o que está em jogo são os interesses em torno de uma questão fundiária".


Ex-professor da École de Hautes Études en Sciences Sociales, de Paris, da Universidade de Chicago e da Universidade de Cambridge, Viveiros de Castro é autor de vários livros, entre eles, Arawete, os Deuses Canibais (Zahar), que resulta de pesquisa de campo com índios do Pará, e A Inconstância da Alma Selvagem (Cosac & Naify), uma coletânea de ensaios que revela sua principal contribuição para a antropologia. Trata-se do "perspectivismo amazônico", a proposição teórica que guia todas as suas formulações.


Existe risco para a soberania nacional na reserva Raposa Serra do Sol, como crê o general?
Existe, sim, uma questão de soberania do governo ao ser contestado publicamente por um membro das Forças Armadas. O general polemiza com uma decisão que, como todo mundo diz, não se discute, apenas se executa. A argumentação de que a reserva indígena represente um problema de soberania está mal colocada.


Por quê?
Há outras reservas em terras contínuas, em fronteiras. É o caso da Cabeça de Cachorro, no município de São Gabriel da Cachoeira, no Estado do Amazonas. E o Exército está lá, como deveria estar. A área indígena não teria como impedir a presença dos militares. O que a área indígena não permite é a exploração das terras por produtores não-índios. Dizer que o Exército não pode atuar é um sofisma alimentado por políticos e fazendeiros que agem de comum acordo, numa coalizão de interesses típica da região. Roraima é um Estado que não se mantém sozinho, ou melhor, que depende do repasse de recursos federais. Um lugar onde 90% dos políticos nem sequer são nativos. Onde o maior arrozeiro, que está à frente do movimento contra a reserva, arvora-se em defensor da região, mas veio de fora. É um gaúcho que desembarcou por lá em 1978, e não há nada de mal nisso, mas combate os índios que justamente servem de "muralha dos sertões", desde os tempos da colônia. Os índios foram decisivos para que o Brasil ganhasse essa área, numa disputa que houve no passado com a Guiana, portanto, com a Inglaterra. Dizer que viraram ameaça significa, no mínimo, cometer uma injustiça histórica. Até o mito do Macunaíma, que foi recolhido por um alemão, Koch-Grünberg, e transformado por um paulista, Mário de Andrade, foi contado por índios daquela área, os macuxis, os wapixanas. Eles são co-autores da ideologia nacional.

As manifestações do general remetem ao discurso dos militares nos anos 70, que dava ênfase à idéia de tirar os índios da tutela do Estado?
Não sei. O general diz: "Sou totalmente a favor dos índios". Imagine então o contrário, um índio indo para a televisão dizer que é totalmente a favor dos generais. Esquisito, não? Vamos pensar: o general não quer matar os índios. Quer que virem brancos? E quem é branco no Brasil? Na Amazônia todo mundo é índio. Inclusive boa parte das Forças Armadas na região é composta por gente que fala o português, mas se identifica como índio.

Esse conflito na Raposa tem por volta de 30 anos. Em 2005, quando o presidente Lula homologou as terras, selou-se o compromisso de retirar, no prazo de um ano, os produtores rurais que estavam dentro da área reservada. Parecia que todo mundo ficara de acordo. Por que a situação se deteriorou?
Há o jogo político. Disseminam-se inverdades, como a de que a área da reserva ocupa 46% de Roraima, quando apenas ocupa 7%. As terras indígenas de Roraima, somadas, dão algo como 43% do Estado. Mas a Raposa tem 7%.

Ou, 1,7 milhão de hectares.
O que não é um absurdo. As terras de índios são 43% ao todo, porém, até 30, 40 anos atrás, eram 100%. E o que acontece hoje com os 57% que não são terras de índios? São ocupados por uma população muito pequena, algo em torno de 1 milhão de pessoas. O que é isso? É latifúndio. Sabe quantos são os arrozeiros que exploram terras da reserva? Seis. Não há dúvida de que o que se quer são poucos brancos, com muita terra. Outra inverdade: as terras da reserva são dos índios. Não são. Eles não têm a propriedade, mas o usufruto. Porque as terras são da União. E a União tem o dever constitucional de zelar por elas. Já os arrozeiros querem a propriedade. As notícias que temos são as de que, desde a homologação, produtores rurais que estão fora da lei já atacaram quatro comunidades indígenas, incendiaram 34 casas, arrebentaram postos de saúde, espancaram e balearam índios. Paulo César Quartiero, o arrozeiro-mor, foi preso na semana passada por desacato à autoridade. Já está solto, mas, enfim, esse é o clima de hostilidade que reina por lá. Sinceramente, acho que o general Heleno está sendo usado por esses tubarões do agronegócio, que o envolvem numa questão de soberania totalmente artificial. O general cai nessa e vem com uma tese de balcanização, que não faz o menor sentido. Ele disse à imprensa: "O risco de áreas virem a se separar do território brasileiro, a pedido de índios e organizações estrangeiras, pode ser a mesma situação que ocorreu em Kosovo". Muito bem, o general raciocina como se nós fôssemos os sérvios? Por acaso seria o Brasil a Sérvia e os índios, minorias que precisam ser eliminadas? Não estou entendendo.

O que se questiona na Raposa é a criação de uma reserva enorme, em área contínua.
A declaração do ministro Gilmar Mendes a esse respeito é espantosa. Ele defende a demarcação de ilhas, e não de terras extensas. Em primeiro lugar, não sabia que ministro do Supremo é demarcador de terras. Demarcar é ato administrativo, cabe ao governo, não ao Judiciário. Em segundo lugar, as terras indígenas já são um arquipélago no Brasil. Acho curiosa essa expressão: demarcar em ilhas. Significa ilhar, isolar, separar. Demarcar de modo que um mesmo povo fique separado de si mesmo.

Existe o risco de reivindicação de autonomia por parte dos índios?
A terra ianomâmi está demarcada desde o governo Collor e nunca houve isso. Alguém imagina que os ianomâmis queiram reivindicar um Estado independente, justamente um povo que vive numa sociedade sem Estado? Chega a ser engraçado.

E se eles foram manipulados por interesses estrangeiros?
Empresas e cidadãos estrangeiros já são proprietários de partes consideráveis do Brasil. Detêm extensões enormes de terra e parece não haver inquietação em relação a isso. Agora, quando os índios estão em terras da União, que lhes são dadas em usufruto, daí fala-se do risco de interesses estrangeiros. A Amazônia já está internacionalizada há muito tempo, não pelos índios, mas por grandes produtores de soja ligados a grupos estrangeiros ou pelas madeireiras da Malásia. O que não falta por lá é capital estrangeiro. Por que então os índios incomodam? Porque suas terras, homologadas e reservadas, saem do mercado fundiário.

É uma questão fundiária?
É. Essa história de soberania nacional serve para produzir pânico em gente que vive longe de lá. É claro que o Exército tem de cumprir sua missão constitucional, que não é a de ficar criticando o Executivo, é proteger fronteiras, fincar postos de vigilância, levar seus batalhões, criar protocolos de convivência com as populações locais. Mas o que prevalece é o conflito fundiário e a cobiça pelas terras. Veja o que aconteceu no Estado do Mato Grosso. O que fez esse governador (Blairo Maggi), considerado um dos maiores desmatadores do mundo? Derrubou florestas para plantar soja, com o consentimento do presidente da República, diga-se de passagem. Hoje o Estado do Mato Grosso deveria se chamar Mato Fino. Virou um mar amarelo. O único ponto verde que se vê ao sobrevoá-lo é o Parque Nacional do Xingu, reserva indígena. O resto é deserto vegetal. Uma vez por ano, o deserto verdeja, hora de colher soja. Depois, dá-lhe desfolhante, agrotóxico... E a soja devasta a natureza duplamente. Cada quilo produzido consome 15 litros de água. Em Roraima não se deve bater de frente com o Planalto. Representa esse Estado o senador Romero Jucá, que é pernambucano e hoje atua como líder do governo. Jucá tem interesses claros e bem definidos. É dele o projeto que regulamenta a mineração em terras indígenas. Regulamenta, não. Libera.

Ele foi presidente da Funai.
Num momento particularmente infeliz da política indigenista brasileira. Olha, não há nada de errado em ser gaúcho ou pernambucano e fazer a vida em Roraima. Mas não precisa isolar as comunidades e solapar seus direitos. Outra aspecto precisa ser lembrado: até que saísse a homologação da Raposa, o que demorou anos e anos, muito foi tirado de lá. A sede do município de Uiramutã, com 90% de índios entre seus moradores, foi transferida para fora da área. Estradas federais cortam a reserva, bem como linhas de transmissão elétrica. A rigor, já não é uma terra tão contínua.

O general diz que a política indigenista no Brasil é lamentável e caótica. Concorda com ele?
Partindo dele, a declaração não chega a ser um furo de reportagem. Creio que essa política anda melhor hoje. Em alguns aspectos tem problemas, sim, como nos programas de saúde para populações indígenas, desastrosos desde que passaram para a coordenação da Fundação Nacional de Saúde (Funasa). Tem havido desmandos e irregularidades em toda parte. Mas do ponto de vista de relacionamento dos indígenas com os poderes da República, as coisas não estão tão mal assim.



Os índios são instrumentalizados no Brasil?
Que poderes os instrumentalizariam? A Igreja? Hoje não podemos falar só em Igreja, no singular, mas em igrejas. Porque lá estão os católicos e os evangélicos. Sei que a Igreja Católica não tem tido uma relação muito boa com o Exército e com os políticos na região da Raposa, mas isso é superável. Falta, a meu ver, um esforço da própria Igreja para melhorar a visão do problema e ganhar mais senso político. E as ONGs? Instrumentalizam? Hoje quase todo deputado no Congresso tem ONG própria. Então as relações não-governamentais ganharam uma capa sombria, mas o fato é que existe organização de todo tipo, assim como existe cidadão de todo tipo. Há bandidagem na Amazônia? Claro que há. Índio é santo? Claro que não. Mas será que aqueles carros de luxo contrabandeados pelo filho do governador de Rondônia entram pelas áreas indígenas? Tenho minhas dúvidas. Por que o Exército não impede esse contrabando, que também é uma afronta à soberania? Historicamente, seguimos o modelo de colonização segundo o qual é preciso bandido para povoar e defender certas faixas. Fronteira é feita por toda a sorte de gente. E o Estado parece ter um discurso ambíguo: protesta porque tem gente fora da lei na fronteira, mas, ao mesmo tempo, precisa dos fora-da-lei para fazer o que não é possível legalmente.

O índio é imune à bandidagem?
O índio tem a mesma galeria de problemas de qualquer ser humano. E tem, de fato, uma situação especial no Brasil. Porque este país reconhece direitos originários e isso, por si só, é um gesto histórico de proporções imensas. O País reconhece que tem uma dívida para com os índios. Apesar disso, reina uma abissal ignorância sobre a realidade desses povos de quem somos devedores.

Por quê?
O brasileiro vive um complexo que eu chamaria de a nostalgia de não ser europeu puro. Isso também se traduz no medo de ser confundido com índio. É um complexo de inferioridade. Ser "um pouco índio" até cai bem na medida em que existe uma certa simpatia com a idéia de mistura de raças, o que também não deixa de ser ambíguo. Por outro lado, o estereótipo clássico do índio, aquele sujeito de cocar e tanga, cada vez menos espelha a realidade. O caboclo da Amazônia pode ter hábitos tipicamente indígenas, mas é também o sujeito que vê televisão, fala ao telefone, como nós.

Tem-se uma percepção disseminada de que o Brasil foi habitado por índios primitivos, diferentes dos incas, maias ou astecas, cujas civilizações eram até resplandescentes.
Talvez. O México realmente produziu uma forte identificação com povos que foram esmagados pelo colonizador. Aqueles índios fizeram uma civilização mais parecida com a que havia na Europa, com seus palácios, templos, sacerdotes, um aparato que realmente não aconteceu por aqui. Agora, há muito desconhecimento dos índios brasileiros, e isso em parte é culpa nossa, antropólogos, que precisamos demonstrar melhor as soluções originais de vida que esses povos encontraram. Soluções para atingir uma forma de organização social bem-sucedida, no que diz respeito à satisfação de suas necessidades básicas. Não os vejo como índios pobres, mas originais. Considerando a história da espécie humana neste planeta, penso que não estamos em condição de dar lição a ninguém. Nós, os não-índios, tivemos uma capacidade imensa de criar excedentes e uma dificuldade quase congênita de fazer com que sejam usufruídos por todos, de maneira eqüitativa. Articulamos a desigualdade e deixamos para alguém a conta a pagar. Os índios desenvolveram um processo civilizatório mais lento, certamente, mas não deixam a conta para trás. Significa ser primitivo? Eu me pergunto: o que diabos temos a ensinar aos índios se não conseguimos resolver a dengue no Rio? O que temos a lhes mostrar se não damos jeito no trânsito da cidade de São Paulo?

Quando o europeu chegou nas Américas, a população indígena estaria na casa dos 100 milhões de pessoas. Esse dado é razoável?
Ah, esses cálculos variam muito, depende da metodologia empregada. O que se pode afirmar é que, por volta do século 15, a população indígena nas Américas era maior do que a população européia. Havia mais gente aqui do que lá. No Brasil, fala-se numa população pré-colombiana entre 4 e 5 milhões. Houve uma perda de 80% disso, desde então. Em certos momentos, houve um declínio demográfico muito profundo, tanto que, na época do Darcy Ribeiro, quando se fez uma contagem, havia algo como 200 mil índios no País. Hoje estima-se em algo em torno de 600 mil.

O crescimento tem a ver com a aplicação do quesito raça-cor, no censo IBGE, o que levaria mais gente a se declarar índio?
A autodeclaração é um fator importante, mas não o único. Hoje ocorre um número maior de nascimentos. O grande choque demográfico sobre a população indígena foi de ordem epidemiológica, com as doenças trazidas pelo colonizador. Varíola, gripe, sarampo mataram aos milhões. Até pouco tempo, ainda havia epidemias graves em certas áreas. Mas a tendência é que as populações adquiram resistência, atingindo o equilíbrio biológico. As condições sanitárias também mudaram dramaticamente no século 20. Vieram as vacinas, a penicilina, a assistência de saúde melhorou, tudo isso ajudou a recuperar a população. Já o declarar-se índio tem a ver com um fenômeno que se inicia nos anos 70, 80, que foi acentuado pela Constituição de 1988. Falo da recuperação da identidade indígena. Gente que foi "desindianizada" na marra passou a reivindicar sua origem. Em muita comunidade rural por esse Brasil as pessoas foram ensinadas, quando não obrigadas, a dizer que não eram índias. Pararam de falar a língua do grupo, tinham vergonha de seu passado, de seus costumes. Num processo em que ser índio deixa de ser estigma, e ainda confere direitos, essas pessoas que nada tinham na condição de brasileiros genéricos, buscaram o caminho da reetnização. Isso é assim mesmo. E desde quando buscar direito é tirar vantagem? A raiz do problema não está no que o índio ganha, mas em quem perde com isso. Quem perde? Eis a questão.

A desconfiança em relação a possíveis pleitos de autonomia tem a ver com o que se passa na Bolívia, país que mudou a constituição para atender aos índios?
É interessante como se tem invocado a Bolívia ultimamente. A população daquele país é quase toda indígena, enquanto no Brasil falamos de uma minoria irrisória. Zero vírgula zero alguma coisa. Lá é briga de índio. Curioso o Brasil temer virar uma Bolívia, quando uma das tensões sociais que se vê hoje por lá é justamente a presença de brasileiros. São grandes proprietários de terra.

As reivindicações dos índios na Bolívia podem ser imitadas aqui?
Mas o que os nossos índios estão pedindo? Passaporte de outro país? Dupla nacionalidade? Uma bandeira só para eles? Uma outra Constituição? Nada disso. O que eles pedem é justamente maior presença do Estado brasileiro onde vivem, para não depender da intermediação do político local. Isso os constitui como uma nação à parte, no sentido jurídico? Evito esse conceito, porque tudo é nação no Brasil.

Como assim?
Tem nação nagô, nação rubro-negra, nação corintiana. Essa também é uma herança de Portugal, que, no passado, tratava os povos como nações em documentos administrativos. A rigor, nação é uma construção subjetiva, um compartilhamento de sentimentos e cultura. É isso. Mas a turma do discurso do pânico pensa assim: primeiro o índio tinha vergonha de ser índio, depois viu que é bom ser comunidade. Daí ganhou terra, vai querer autonomia e fundar uma nação. Ora, quem diz isso nunca colocou o pé numa terra indígena.

Os afrodescendentes deveriam pleitear os mesmos direitos que os índios?
São situações diferentes. De cara, vou dizer que sou favorável às cotas para negros. Mas os afrodescendentes estão espalhados pelo Brasil e não têm a mesma dinâmica de identidade que os indígenas têm. Um caso à parte são os quilombolas, ao provarem seu vínculo territorial. Veja bem, quando falo de índio, ao longo de toda esta entrevista, falo de populações territorializadas. E, atenção, falo de direitos coletivos, não individuais. Por isso é que o caso dos quilombolas parece guardar certa correspondência. Porque são comunidades rurais descendentes de escravos, que puderam manter uma continuidade histórica e uma certa coesão do ponto de vista patrimonial e demográfico. Por isso é que a Constituição reconhece seus direitos territoriais. São direitos compensatórios, é verdade, mas representam um avanço.

Professor, quem é, afinal, índio no Brasil?
Vamos mudar a pergunta: quem está autorizado a dizer que é índio? Eu não estou. Esse é um problema fundamental: quem está autorizado a dizer quem é quem, quem é o quê. Fazer disso uma questão de peritagem me parece uma coisa monstruosa. Ninguém se inventa índio, ninguém sai por aí reivindicando uma identidade escondida, recalcada, eu diria. Vá ver de perto e descobrirá que é assim que a coisa acontece. Portanto, não é índio quem quer. Mas quem pode. Não é negro quem quer. Mas quem pode.

Como assim?
Se você souber que um grupo de hippies do Embu, em São Paulo, se diz descendente de guarani, muito bem, terão de ver se isso cola. Se colar do ponto de vista social, e não estou falando do ponto de vista jurídico, então colou. Costumo dizer que, no Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é. Quem não quer ser é quem ativamente se distingue. Para facilitar: digo que é índio aquele que pertence a uma comunidade que se pensa como tal. Também não estou levando em consideração o DNA. Mais recentemente, divulgou-se um estudo segundo o qual a presença do negro e do índio é muito mais alta do que se suponha na média do patrimônio genético brasileiro. Somos algo como 33% de índio, 33% de negro, 33% de branco. O que nos leva a supor que o estupro foi uma prática muito usual. É claro que os genes vieram pelas mulheres negras e índias, submetidas ao homem branco.

Diz-se que 49,5% dos 225 povos indígenas do Brasil são constituídos, cada um, de no máximo 500 indivíduos. Vem daí a idéia de que é pouca gente para muita terra?
Mas no Estado de Roraima há meia dúzia de arrozeiros fazendo esse estardalhaço todo. Meia dúzia! Também não é pouca gente? Como é que comunidades tão pequenas podem ameaçar o Brasil? Só se forem criar Estados de Mônaco. Utilizar o índio como modelo de latifúndio, como se tem feito, é um prodígio de má-fé. Índio também vende madeira? Claro que vende. Mas só ele? E os outros?

Desses 225 povos, 36 têm populações parte no Brasil, parte em países vizinhos. Não é um potencial de conflito imenso?
Se algum país está o preocupado com isso, certamente não é o Brasil. O fato de haver guaranis no Brasil e na Argentina é mais problema para o vizinho. Compare as duas populações, compare o tamanho dos países. Ter ianomâmis no Brasil e na Venezuela sempre foi complicado para o lado de lá, porque a Venezuela tem petróleo. Mas agora o Brasil também tem, nem precisamos ficar mais com complexo de inferioridade (risos). Qualquer tentativa de ver um problema aí é artificial. O que se sugere? Que se levante uma cortina de ferro para impedir que os ianomâmis passem de um lado para o outro? Por que índios podem cruzar a fronteira Brasil-Uruguai livremente, e não podem cruzar a fronteira Brasil-Venezuela? Por que temos medo do Chávez? Ter comunidades dos dois lados faz da fronteira uma zona de frouxidão. Será que é isso? A fronteira mais complicada do Brasil, hoje, é com a Colômbia, por causa das Farc, e os índios não têm nada a ver com isso. Aliás, eles atrapalham a guerrilha.

Por quê?
Porque há mais presença do Estado nas áreas onde vivem. Não vejo como os índios possam perturbar a segurança de nossas fronteiras e, lembrem-se, populações binacionais existem em várias partes do mundo. Pensemos também no bilingüismo. Até final século 18 em São Paulo falava-se a língua geral, o nhangatu, uma derivação do tupi. Foi uma língua imposta pelos missionários, até hoje ouvida em alguns locais da Amazônia. Mas ainda ouvimos cerca de 150 línguas indígenas, o que representa uma diversidade incrível. Algumas dessas línguas são tão diferentes entre si quanto o português do russo, até porque pertencem a troncos diferentes. E são faladas por indivíduos bilíngües, que adotam também o português no dia-a-dia.

Digamos que os não-índios deixem a Raposa. Os índios de lá poderão plantar e fazer lucro? Poderiam virar arrozeiros?
Sim, podem plantar e vender. Podem até virar arrozeiros. Mas terão de produzir dentro de limites muito estritos, sujeitos a leis ambientais severas, não se esqueça de que a reserva integra o Parque Nacional de Roraima. Também não podem explorar o subsolo, a não ser o que há no solo de superfície. Mas francamente acho que a população indígena jamais entrará de cabeça no modo de produção do agronegócio, que eu chamo de modelo gaúcho, porque isso simplesmente não bate com seu modelo de civilização. Por isso insisto tanto em dizer que estas não são terras de índio, mas terras de usufruto dos índios. Nunca houve polêmica sobre a definição de reserva, porque se sabe que o domínio das terras é da União. Isso é inclusive a maior garantia para os índios. No dia em que não houver mais, eles serão invadidos imediatamente. Inclusive pelo Brasil, inclusive pelos arrozeiros. Só que no sentido técnico essa invasão já houve. Os índios não têm soberania porque já a perderam e se renderam. Suas populações foram invadidas, exterminadas, derrotadas. O que eles querem é que os direitos de vencidos sejam respeitados. Não se pode infligir uma segunda derrota a eles. Isso é contra as leis, contra tudo.

Ou seja, o que parece privilégio é direito de vencido?
Inimigos muito mais graves foram mais bem tratados, quando vencidos. Veja o que aconteceu com os alemães depois do final da guerra. Com todos os tribunais e punições que se seguiram, o país foi reconstruído das cinzas. E o que dizer da guerra implacável contra os índios? Foram exterminados, tratados como bichos, escorraçados por um discurso de língua de cobra em que metade diz que vai defender a pátria e metade vai colocar o dinheiro no bolso. Não, os índios não estão em guerra com o Brasil. Os da Raposa brigam com meia dúzia de arrozeiros que, por sua vez, não representam o Estado brasileiro.Uma coisa me parece estranha: encarregado pela ONU, o Exército brasileiro lidera uma missão militar no Haiti, mas não consegue tirar de uma reserva indígena seis fazendeiros?

A Constituição brasileira está fazendo 20 anos. O que representou para os índios?
Foi um avanço, mas ainda falta regulamentar muita coisa. É impressionante como a Constituição tem inimigos. Todo mundo quer tirar dela uma lasca, com cinzel e tudo. O artigo referente aos direitos indígenas é um dos mais visados. Há pelo menos 70 projetos de lei tramitando no Congresso Nacional, nesse campo específico, e todos pretendem diminuir as garantias do direito às terras. Mais de 30 dessas proposições querem alterar os procedimentos de demarcação. Buscam reverter processos administrativos. Os oito deputados federais do Estado de Roraima apresentaram projetos para suspender a portaria que criou a Raposa Serra do Sol. Toda bancada é contra a reserva. O projeto de regulamentação para mineração, do Jucá, é primor de como se pode erodir direitos, comendo o pirão pelas beiradas. Em compensação, o projeto de lei que substitui o Estatuto do Índio está há 14 anos parado no Congresso. O que existe, claramente, é a tendência de redução de proteção jurídica aos povos indígenas. E, conseqüentemente, de redução da presença e da soberania da União nessas áreas.

O senhor desenvolveu uma teoria conhecida no mundo todo como "perspectivismo amazônico". É vista como uma grande contribuição à antropologia.
Não sou eu quem vai dizer isso...

Mas parece que o senhor conseguiu inverter o ponto focal, digamos assim, dos estudos indígenas. É isso mesmo?
Fiz um trabalho teórico que não é só meu, é dos meus alunos também. Faço uma experiência filosófica que no fundo é muito simples. Temos uma antropologia ocidental, montada para estudar os outros povos, certo? O que aconteceria se vocês imaginassem uma antropologia feita do lado de lá, ou seja, do ponto de vista indígena? Foi isso que me levou a entender que, para os índios, a natureza é contínua, e o espírito, descontínuo. Os índios entendem assim: há uma natureza comum e o que varia é a cultura, a maneira como me apresento. Daí a preocupação de se distinguir pela caracterização dos corpos. E as onças, como se vêem? Como gente. Só que elas não nos vêem como gente, mas como porcos selvagens. Por isso nos comem. Enfim, para os indígenas, cada ser é um centro de perspectivas no universo. Se eles fizessem ciência, certamente seria muito diferente da nossa, que de tão inquestionável nos direciona a Deus, ao absoluto, a algo que não podemos refutar, só temos de obedecer. Os índios não acreditam na idéia de crer, são indiferentes a ela, por isso nos parecem tão pouco confiáveis (risos). No sermão do Espírito Santo, padre Antonio Vieira diz que seria mais fácil evangelizar um chinês ou um indiano do que o selvagem brasileiro. Os primeiros seriam como estátuas de mármore, que dão trabalho para fazer, mas a forma não muda. O índio brasileiro, em compensação, seria como a estátua de murta. Quando você pensa ela está pronta, lá vem um galho novo revirando a forma.

ENTREVISTA, publicada em 20 de abril de 2008, no Jornal O Estado de S.Paulo. FONTE: http://www.estado.com.br/suplementos/ali/2008/04/20/ali-1.93.19.20080420.7.1.xml

quinta-feira, 24 de julho de 2008

BIBLIOTECONOMIA SOLIDÁRIA: um novo mundo é possível !

Notícia

SÃO MATEUS EM MOVIMENTO
27/06/2008 - São Mateus

No último dia 03 de junho, o Grupo PerifAÇÃO junto com os alunos do curso técnico de biblioteconomia do Senac Consolação apresentaram seu projeto de conclusão de curso. A ação cultural “São Mateus em Movimento” teve o objetivo de mostrar a identidade de São Mateus através da arte, com exposição fotográfica, vídeo documentário, literatura, música e teatro. Mas a principal atividade do grupo foi instalar uma biblioteca na região de São Mateus.


Os integrantes do grupo PerifAÇÃO, Cristiane Torres de Oliveira, Kauê Gabriel Machado dos Santos, Kátia Cristina da Mata, Lourival Lopes Cancela, Priscila Machado e Tiago Alexandre da Silva montaram o trabalho com a intenção de exaltar a cultura do bairro e as conquistas dos moradores.

O início da apresentação contou um pouco da história de São Mateus, que antes era uma floresta, virou fazenda, loteamento, e hoje é um dos grandes bairros de São Paulo; considerado por muitos como uma cidade, devido ao comércio forte, agências bancárias, ao parque industrial, a expansão do setor de serviços, além da significativa importância do meio ambiente, como é o caso do Morro do Cruzeiro e as diversas nascentes da região.


As fotografias apresentadas expuseram a arte cultural popular (a cultura de rua); a música, por sua vez, demonstrou a simplicidade e humildade da população, sendo “Gente Humilde”, de Vinícius de Moraes, a escolhida pelo grupo para dedicar ao povo de São Mateus que, de acordo com o orador Lourival Lopes:

É um povo de vitória e conquista que tem de matar um leão por dia”.

O vídeo documentário mostrou depoimentos de moradores que se orgulham em morar em um local que quando surgiu era composto por apenas ruas de terra e não tinha nenhuma estrutura, e hoje é praticamente uma cidade. Mas, o principal projeto do grupo foi instalar uma biblioteca completa no CEC Maria Cursi, que atende 161 crianças das famílias do bairro.

De acordo com Tiago Alexandre, membro do grupo e morador de São Mateus:

-Senti a necessidade de uma biblioteca, pois as que existem são distantes da população. Pesquisei tudo isso e levei o projeto ao CEC. A idéia inicial era apenas de um acervo”.

A biblioteca no CEC Maria Cursi terá sua inauguração oficial no dia 05 de julho e tem 20 metros quadrados, seis estantes, mesa de leitura, de atendimento, dois computadores, Internet e telefone. Graças a grande quantidade de doações, o total de livros está em aproximadamente 3 mil exemplares devidamente processados e catalogados, além disso, está aberta ao público em geral.

Endereço: Av. Maria Cursi, 1232, São Mateus - São Paulo-SP - CEP: 03962-000
Telefones: 6692-6800 / 6692-5911 / 6693-1919
E-mail: bibcec@gmail.com

Fonte: http://portal.prefeitura.sp.gov.br/noticias/ars/sao_mateus/2008/06/0016

quinta-feira, 17 de abril de 2008

DIGA COM QUEM TU ANDAS E DIREI QUEM TU ÉS! Comentário sobre aliança PT-PSDB em MG.


Marginalizados em nossa própria terra desde o “mito da fundação”, sem casa, sem terra, sem educação, bibliotecas, livros e tantos outros capitais culturais, perdemos também a memória e o sentido original das coisas. Somos facilmente manipulados como “títeres” nas mãos de falsos líderes preocupados apenas com suas benesses corporativas e interesses de umbigo.

Com a militância partidária, a manipulação ideológica não é diferente: há tempos servem de montaria para as retóricas de fariseus, políticos e sindicalistas de ocasião. Causa-me espanto que a inteligentia acadêmica de esquerda ainda chore lágrimas de crocodilo, quando o assunto é “aliança” partidária em tempos de eleição. Será a ingenuidade um apanágio hereditário de idealistas que se recusam a confrontar os fatos? Ou uma herança medieval de cunho místico e messiânico dos que ainda acreditam em "ungidos" capazes de operar a transformação social da realidade?

A impotência do Estado brasileiro tem se traduzido em políticas vicárias em doses de mandato de igual modo praticadas tanto pelo governo de FHC quanto de Lula (sempre estiveram juntos). Guiados pela lógica perversa de um mercado tirano, ambos abraçaram indulgentemente os princípios neoliberais de cunho “desenvolvimentista”.

NOLI NUOVO SUB SOLI...

Ora, por que o estranhamento, mon frère Beto?
Para quem, outrora, já defendera o “voto útil”, já se aliara com o PL e, hoje, governa barganhando cargos com o PMDB, nada de novo sob o solo da pólis. O caso é menos o de uma “metamorfose ambulante” do que a manutenção de uma ordem viciada, acostumada a ética do vale-tudo em prol da manutenção de seus privilégios. Quem está no poder, quer manter-se a qualquer custo, “doa a quem doer”. Desde a sua formação, o Estado se inscreve desde longa data num projeto de redução da diferença à semelhança, de redução do outro ao mesmo, da dissolução do múltiplo no único.



C’EST TOUT LA MÊME CHOSE..., Mon Frère Beto!
Tout la même chose...
.

Mudam-se as moscas, mas a m... continua a mesma.
Alianças ainda são feitas em função das seduções imediatistas e da ambição pelo poder, como se cada nova aliança fosse a primeira, sem qualquer espaço para a memória de erros passados, sem qualquer compromisso com a transformação social e o respeito pela dignidade humana.




Sobre esta velha opinião formada sobretudo, e sob o lacre do equívoco, que tão bem se incrustou em diferentes esferas do cotidiano, escolas, igrejas, rampas e ministérios, gravando vestígios de intolerância, racismos e preconceitos, eis a questão: teremos a coragem suficiente para esquecer o que tivemos a fraqueza de aprender? Seremos capazes de extirpá-la até a raiz?

Ora técnica, ora pomposa, e na maioria das vezes, de forma afrontada (na cara dura), essa prática carcomida e viciosa que se refestela em solo tipiniquim é o retrato de uma retórica míope que em nada se parece com a profanada "metamorfose ambulante".
É a expressão histórica e tradicional de uma mesma verbiagem oca, inútil e vã, que remonta aos tempos de colonialismo e hoje se traduz em acordos e aparatos, cristalizados à custa de hierarquias, privilégios e alienação.
Desgraçadamente, em prejuízo da RES-PÚBLICA, vem sendo perpetuados – incolumemente — ao longo de cinco séculos por quem decide o que melhor lhe convém.
Se já nos encontramos de joelhos, não resta outra coisa a fazer senão rezar...

Comentário ao texto de Frei Beto, escrito em 11-Abr-2008, reproduzido abaixo.
Por Edison Santos, USP-SP - edisonlz@usp.br - editor do site: http://clinicadotexto.blogspot.com/


PT E PSDB DE MÃOS DADAS

Nunca vi cabeça de bacalhau, mendigo careca, santo de óculos, ex-corrupto, nem filho de prostituta chamado Júnior. Nunca imaginei que, fora dos grotões, onde o compadrio prevalece sobre princípios ideológicos, veria uma aliança entre PT e PSDB. Mas o impossível acontece em Belo Horizonte, com ampla aprovação das bases petistas.
Mudei eu ou mudou o Natal? Sim, sei que Minas, onde nasci, é terra estranha, o inusitado campeia à solta: mula-sem-cabeça, lobisomem, chupa-cabra, discos voadores... Criança, vi na Praça Sete, na capital mineira, uma enorme baleia exposta à visitação pública na carroceria de uma jamanta. A Moby Dicky embalsamada exalava um forte mau cheiro que obrigou as esculturas indígenas do Edifício Acaiaca a tapar o nariz.
O que foi feito da grita do PT belo-horizontino sob oito anos de governo FHC? Em que bases programáticas a aliança se estabeleceu? Quem cedeu a quem? Quem traiu seus princípios políticos e históricos?
Lembro dos anos 50/60, quando o conservador PSD, de JK, fez aliança com o progressista PTB, de Jango. O primeiro neutralizou o segundo. E o sindicalismo, até então combativo, ingressou na era do peleguismo. No cenário internacional, o Partido Trabalhista inglês aceitou aliar-se ao Partido Republicano dos EUA. Nunca mais o inglês foi o mesmo, a ponto de apoiar a invasão do Iraque.
Só uma razão é capaz de explicar essa aproximação de pólos opostos: a lógica do poder pelo poder. Quando um partido decide que sua prioridade é assegurar a seus quadros funções de poder, e não mais representar os anseios dos pobres e promover mudanças num país de estruturas arcaicas como o Brasil, é sinal de que se deixou vencer pelas forças conservadoras. E não me surpreende que nisso conte com amplo apoio das bases, sobretudo quando se observa que a antiga militância, impregnada de utopia, cede lugar a filiados obcecados por cargos públicos.
Tenho visto, em cinco décadas de militância, como a síndrome de Jó ameaça certos políticos de esquerda. Enquanto estão fora do poder e são oposição, nutrem-se de uma coerência capaz de fazer corar são Francisco de Assis. Alçados ao poder, inicia-se o lento processo de metamorfose ambulante: princípios cedem lugar a interesses; companheiros a aliados; lutas por ideais a vitórias eleitorais.
Jó, submetido às mais duras provas, perdeu tudo, exceto a fé, suas convicções. Tais políticos, diante de um fracasso eleitoral ou perda de função pública, esquecem os princípios e valores em que acreditaram, defenderam, discursaram, escreveram e assinaram, para salvar a própria pele. Horroriza-os a perspectiva de voltarem a ser cidadãos comuns, desprovidos de mordomias e olhares bajuladores. Ainda vão à periferia, desde que como autoridades, jamais como militantes.
Talvez eu tenha ficado antigo, dinossáurico, incapaz de entender como um partido que sempre se aliou ao PFL, agora DEM, pode, de repente, sentir-se à vontade de mãos dadas com o PT. Não que tenha preconceito a peessedebistas. Sou amigo de muitos, incluído o governador José Serra. Mas quem viver verá: se o candidato da aliança PT-PSDB for eleito prefeito de Belo Horizonte, o palanque de Minas, nas eleições presidenciais de 2010, vai ser aquela saia-justa.
Minas é uma terra de mistérios: tem ouro preto, dores de indaiá, mar de Espanha, juiz de fora, rio acima e lagoa santa. E fora de Minas tenho visto coisas que já nem me espantam: Sarney e Delfim Netto apóiam Lula; o governo do PT aprova os transgênicos e a transposição do rio São Francisco; o Planalto petista revela gastos da gestão FHC e esconde os seus...
Os tempos e os costumes mudam, já diziam os latinos; as pessoas e os partidos também. Eu é que deveria ficar mudo, já que teimo em acreditar que fora da ética e dos pobres a política não tem salvação. Deve ser culpa de minha dificuldade de entender por que às vésperas de eleições todos debatem nomes de candidatos. E não propostas, programas e prioridades de governo.


Frei Betto é escritor, autor de "A mosca azul – reflexão sobre o poder" (Rocco), entre outros livros.

Fonte: Correio da Cidadania, 11.04.2008

quinta-feira, 27 de março de 2008

DO GÊNESIS AO GÊNERO: UM POTE ATÉ AQUI DE MÁGOAS

INTRODUÇÃO

Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosas duma imagem
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca ri alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doces almas de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!
(A mulher, Florbela Espanca)

O imaginário coletivo constrói-se através de práticas discursivas que expressam as concepções que os povos têm acerca do destino e do seu lugar no universo. Ao longo de sucessivos processos civilizatórios, essas práticas discursivas desempenham importante papel na formação da sociabilidade cultural de homens e mulheres. Com o tempo e o acúmulo de experiências, reforçamos nosso sistema de etiquetas, mais compatível com o passado de “suposições” e idéias preconcebidas, sem questionar imperativos de uma ordem social arbitrária de relações de dominação. Cada um se conforma porque os outros também obedecem.
A representação do papel subalterno da mulher em diferentes formações socioculturais gerou permanências nas relações simbólicas que se configuram no interior de práticas discursivas falo-narcísicas. Tais relações simbólicas, segundo Bourdieu, funcionam como articulações das relações de classe e como tal são instrumentos de poder e dominação: “o campo simbólico reproduz o campo das relações de produções sociais. Os sistemas simbólicos têm a função de ordenação lógica ou de representar coerentemente o mundo e esta função, em uma sociedade de classes, assume um aspecto eminentemente político de legitimação de hierarquias sociais”.
Ao estudar comparativamente a herança das culturas judaica, cristã e grega, observamos que o discurso do Ocidente foi cimentado unilateralmente sob o ponto de vista masculino. Esta matriz androcêntrica sempre foi avessa à participação da mulher na produção do saber, negando-lhe o acesso à prática mais prestigiada de cultura intelectual: o estudo da ciência, privando-a igualmente de expressar sua voz e desenvolver o apreço pelo ato de conhecer. Fortemente calcado na devoção ortodoxa (negação da sedução) e obediência servil, tal legado histórico aprisionou as mulheres ao “monopólio masculino da língua e produção do conhecimento”.
No caso da cultura judaica, a atribuição do papel social feminino vincula-se ao principal pilar do judaísmo: a celebração do Shabat (dia consagrado ao repouso), cuja memória litúrgica do tempo santificado revigora o sistema de crenças do judaísmo. Sob domínio e inscrição do homem, as narrativas bíblicas de tempos passados preservaram a memória judaica da erosão inexorável do tempo, pois tiveram a intenção de resguardar a imagem divina da criação.
Por outro lado, ao mesmo tempo em que a noção de repouso sabático representa transcendência dos limites do tempo histórico enquanto vivência antecipada do tempo messiânico, também é a principal responsável pela estabilidade da organização social da cultura judaica, na medida em que o homem, doravante responsável por seu destino, transforma-se em protagonista da história: sua responsabilidade desloca-se do reino da natureza (ou do cosmos) para o plano da história.
Nesse ponto cabe contestar: se o cuidado e obediência aos preceitos do Shabat foram concedidos à mulher, sob a alegação de que a “graça já lhe pertence” por natureza, não se justifica a privação de seu acesso aos estudos e à ciência. A construção de seu papel axial vinculado à vida doméstica aprisionou o desenvolvimento intelectual de mulheres que se viram praticamente limitadas à condição de filhas, esposas e mães. As atividades de cunho espiritual elevado tornaram-se uma exclusividade masculina, enquanto às mulheres lhe foram negadas o prazer do acesso ao estudo..


O SHABAT E O PAPEL DA MULHER NA CULTURA JUDAICA

Há três pecados que causam a morte da mulher no parto:
o descuido com a separação menstrual, com a oferta da massa de pão
e com a luz da vela [do Shabat]. (Shabat 2, 6)

Na cultura judaica, coube à mulher a tarefa privilegiada de cuidar do dia consagrado ao repouso divino, ao mesmo tempo em que por séculos a fio o acesso aos estudos lhe foi negado. Tal deleite foi conferido somente aos homens (preferencialmente àqueles que foram devidamente circuncidados).
Muito já se escreveu sobre o Shabat, confirmando-lhe posição proeminente na preservação da tradição e da cultura judaicas. Ao lado dos preceitos éticos da santidade familiar e da sexualidade, o Shabat configura-se como um dos três pilares do judaísmo. Segundo A. J. Heschel, “a catedral do judeu é o Shabat” e de acordo com Milgram, “o deleite do Shabat representa o antegozo da completa ventura que aguarda os homens bons no mundo do porvir”. Tendo papel de centralidade na fundação do ethos judaico e na preservação da memória da erosão inexorável do tempo histórico, procuramos abordar este pilar sagrado na perspectiva do infinitivo, sabendo de antemão que o tempo dignificado no judaísmo tem primazia sobre o espaço, e a sua lembrança reforça a natureza do pacto ético firmado entre Deus e o homem, que o faz recordar continuamente o Pai Criador e a própria dádiva da criação.
O “Shabat” representa o sétimo dia da semana, correspondente ao dia que se seguiu à Criação do Universo, quando então o Eterno descansou (Êxodo 20: 8,12). Conforme já cristalizado pela memória da tradição javista criacionista, subentende-se que se retirando para o repouso, Deus não só deu por acabada a sua obra, justificando-Lhe o descanso (Deus é fatigável?) como também se eximiu de responsabilidade sobre o destino do homem. Compete a este seguir o caminho indicado por Deus (Halakhah) ou escolher outro destino para si, pois sua história (eis a novidade) passa a ser fruto das ações hic et hunc; não pode se furtar à tarefa de assumir as responsabilidades correlatas a cada escolha porque nesta luta paradoxal — concebida como resposta humana ao desafio divino — homens e mulheres são igualmente criadores de sua própria história.
Após análise do lugar destacado que ocupa este “microcosmo do cosmo” — um universo complexo e abundante de significados — pretende-se aqui apontar os valores que subjazem à noção mítica do Shabat, na tentativa de compreender como se deu a representação do papel axial (social e sexual) da mulher na cultura judaica: tão próximas do Shabat, porém quase sempre longe dos Estudos.


O PARAÍSO ADIADO: TEMPO DE LEMBRAR... REPOUSAR... ESPERAR

Mais carne, mais vermes; mais propriedades, mais cuidados;
mais mulheres, mais feitiços; mais concubinas, mais impudor; [...]
Mais Torá, mais vida; mais estudo, mais sabedoria;
mais indagação, mais discernimento; mais justiça, mais paz.
(Ética dos Pais - Pirkei Avot, cap. II, 7)


Conforme sugerem os infinitivos do título, numa projeção temporal cíclica da existência, consideramos o Shabat como ponto de partida para compreender o papel axial assumido pela mulher no judaísmo desde a sua fundação. A essência do judaísmo remete a este pilar messiânico, reversível pela memória em ritual que assegura a sua permanência. Cumpre entender o papel de centralidade deste “microcosmo do cosmo” na representação do feminino, pois, conforme adiantado no preâmbulo deste ensaio, a tarefa de “cuidar” do Shabat foi atribuída, exclusivamente, à mulher. O preço? Ficar longe dos estudos.
Para manter a memória como centro vivo da tradição, o Shabat foi o Dia escolhido para lembrar ad infinitum, o repouso que se seguiu à criação. Essa lembrança reiterada atua como pressuposto da cultura judaica que se perpetua através da história. Representa o dia, doravante consagrado (kadósh). É “O dia” escolhido por Deus para repousar, portanto um dia Santo em relação ao tempo, o mesmo tempo no interior do qual Deus não pode estar inserido, pois “Deus é eterno”, não pertence ao tempo e não se ajusta às noções sombrias do homem.
Em meio à tensão dialética entre a vontade de um Criador onipresente e o livre-arbítrio de sua criação, “o homem é livre para escolher seu caminho e deve aceitar as conseqüências de sua escolha”. Não obstante, o ato de escolha foi tão determinante na definição do papel axial de Eva, modelada a posteriori a partir de uma costela tomada de um homem (Gênesis 2, 18-23), quanto na passagem da “queda” de Adão (Gênesis 3, 16), seguida de castigo pela desobediência a Deus. Lembrar é um imperativo para não esquecer e cuja intimação da memória atua tanto a serviço de Deus quanto em benefício de quem recorda o passado: “Lembra-te dos dias antigos, considere os anos das gerações passadas” (Deuteronômio 32, 7). Lembrar é um signo que representa a necessidade de imitar a Deus, e de reviver ciclicamente o tempo santificado: o dia do Shabat: “Lembra-te de santificar o dia de sábado... porque em seis dias o Eterno fez o céu, a terra, o mar... e repousou no sétimo dia... Por isso abençoou o dia de sábado [Shabat] e o consagrou”. (Êxodo 20, 8, 11)
O problema é que tais episódios bíblicos recuperados pela memória, embora vitais na preservação da cultura judaica, conformaram à mulher um estatuto social inferior.
Há, pois, dois valores primordiais que parecem ser inerentes à noção do Shabat, conforme ilustram as palavras de Abraham E. Milgram: “Graças ao Shabat estabeleceu-se solidamente o princípio segundo o qual os homens têm o direito de viverem livres da escravidão imposta pela ininterrupta labuta e de gozarem no seu sentir e pensar a liberdade necessária para que ambos possam desabrochar e refletir a sua origem divina”.
Na tradição da cultura judaica, o Shabat é o dia santo no qual não é permitido qualquer tipo de intervenção do homem no universo material ou espiritual; não se pode fazer nada com o propósito de intervir na natureza, porque esta interferência do homem simboliza o inverso da noção sabática de repouso na qual a paz e o equilíbrio devem ser mantidos. Segundo Fromm, “o homem deve deixar a natureza intocada, não modificá-la de forma alguma, seja construindo ou destruindo qualquer coisa. Mesmo a menor modificação feita pelo homem no processo natural é uma violação do repouso”. O Shabat é o tempo e o templo santificado para o homem.
Na história do povo judeu, a mesma lei que parece aprisionar é a lei que liberta. A manutenção da reverência e respeito ao preceito sabático, condicionando o modus vivendi de seus seguidores, garantiu a perpetuação não só do preceito, mas do próprio povo que buscou por meio dele conquistar a liberdade plena. Longe de representar escravidão e submissão, o Shabat é a razão de existir e, mais, existir na plenitude da liberdade. Conforme defendeu Erich Fromm, o Shabat foi incluído com destaque entre os Dez Mandamentos porque “expressa a idéia central do judaísmo: a idéia de liberdade, de completa harmonia entre homem e natureza e entre homem e homem; a idéia da antecipação do tempo messiânico e da derrota, pelo homem, do tempo, da tristeza e da morte”.
Sem este valor essencial a ele atribuído, o povo judeu não teria subsistido há tantas humilhações e intempéries durante tanto séculos e séculos. Com efeito, o Shabat é um dos responsáveis por garantir a sobrevivência e a identidade do povo judeu no curso de sua própria história, e através da História. Nessa mesma linha de pensamento, Asheri argumenta que “o Shabat é um dos maiores presentes que Deus concedeu aos judeus, e os historiadores do povo judeu repetidamente afirmaram que ‘tanto quanto Israel manteve o Shabat, o Shabat manteve Israel’. O Shabat, sem dúvida, constitui uma das forças mais poderosas na preservação dos judeus como um povo, durante séculos de exílio e perseguição”.
De posse do livre-arbítrio, os homens tomaram para si a tarefa de governar o mundo, criando um tal aparato simbólico que doravante foi sustentado por meio da atribuição de papéis culturais (somente à mulher foi concedido o direito de cuidar do Shabat), de papéis sociais (no casamento, a função da mulher é servir ao homem e cuidar da casa) e, finalmente, papéis sexuais (a mulher foi feita para aliviar a solidão do homem, “para com ele se deitar, e reproduzir”). Segundo Sherry Ortnet, uma das modalidades dessa ideologia androcêntrica presente em diversas culturas (não ocorre somente na cultura judaica) e elaborada unicamente sob o crivo masculino é a representação da inferioridade feminina por meio de “arranjos sócio-estruturais que excluem a mulher da participação, ou mesmo do contato, com o domínio em que se acredita estarem depositados os poderes da sociedade”. As mulheres judias gozam do privilégio nas obrigações sabáticas, mas são terminantemente proibidas de estudar a Torah. (conhecido como Pentateuco ou Lei mosaica, são as escrituras religiosas judaicas).


ÍMPARES ENTRE PARES: GÊNERO E CIÊNCIA

A meu ver, temos um problema ainda insolúvel. Por que as mulheres sempre foram tratadas como objeto residual da história, seja como tema, seja como assunto ou texto, sem direito à voz e ao saber? Afinal, as mulheres representam ameaça ao poder falocêntrico?
Na representação secular do imaginário bíblico, uma vez expulsas do Jardim do Éden após a “queda”, e sem direito à voz, as mulheres foram terminantemente proibidas de alimentar o espírito com frutos da árvore do conhecimento. E de tal modo que os conflitos apenas foram adiados, mas nunca deixaram de existir, estendendo-se para o conjunto das relações sociais, comprometendo o exercício da cidadania plena em diferentes esferas da vida, do trabalho, família, educação, ciência e tecnologia.
Se a representação sociocultural e simbólica da mulher nos grandes sistemas religiosos que monopolizaram o acesso à educação e à produção dos valores plausíveis à lógica de manutenção do poder temporal sacerdotal e eclesiástico corroborou para obliterar a voz das mulheres (na Bíblia e na vida), privando-as do acesso ao conhecimento, fazendo-as desaparecer pouco a pouco até se tornarem objetos residuais da história; e se, por outro lado, for possível identificar que, na produção intelectual e científica atual, ainda ocupam papel adjutório enquanto subproduto, alvo, objeto ou aposta do discurso masculino-patriarcal e hegemônico, presume-se que a manutenção deste discurso técnico-científico-racional e retórico (apelo à objetividade, negação da subjetividade e ausência de paixões) contribui, indubitavelmente, não só para mantê-las ainda mais distantes do acesso ao conhecimento e à informação — na medida em que são reduzidas à categoria de “assunto” sobre o qual se versa e sobre a qual apenas se fala, raramente respeitadas enquanto “sujeito” — bem como também demonstra que tais classificações estereotipadas servem à manutenção das relações de poder em benefício dos agentes produtores de ciência, esmaecendo ainda mais a sua influência, turvando, por fim, qualquer possibilidade real de construirmos a igualdade de gêneros neste século XXI.
Em contato preliminar com bibliografia especializada, nota-se que quase tudo o que se pôde dizer, tanto quanto o que já foi dito sobre a mulher, quase sempre nunca o foi dito pela voz feminina; e o que comumente já foi dito (e mesmo não-dito) sempre esteve em consonância com o discurso do poder — sabidamente manipulado pela hegemonia masculina. É uma onda de supremacia falocêntrica que se projeta sobre o fundo dos fatos parcelados, com sua espuma de passado (vinculada à tradição judaica e cristã) e sua crista de futuro incerto e nebuloso, ainda que tardiamente pautado, arrazoadamente, na igualdade de gêneros, graças à luta de mulheres de todo o mundo.
Com efeito, é sempre observando melhor como tais relações e cristalizações se fizeram sólidas na sociedade que novas representações da mulher se fazem e se farão. O sentido que conferimos ao misterioso poder reservado à sedução e ao feminino ao longo dos séculos teve a sua origem fundada em equívocos construídos pela tradição javista-cristã, passando pela misoginia dos textos medievais para tão-somente no século XX, bem tardiamente, portanto, ser reformulado em termos de igualdade de gêneros.
Muito do que já se disse antes sobre o feminino precisa ser expresso em outros termos, pois não existem “problemas” separados, nem há caminhos verdadeiramente opostos; tampouco há “soluções” que sejam apenas parciais, nem progressos por acumulação e nem opções sem retorno. Vários elementos são constitutivos do Ser. Sendo ramos do Ser, cada um deles pode trazer consigo toda a ramagem, que pode ser descrita ou dita de outro modo.
Linguagem e Poder são duas faces constitutivas da mesma hegemonia androcêntrica que se perpetuou ao longo dos séculos por intermédio de vozes masculinas incontestes na tradição das culturas judaica e cristã. A supremacia masculina conservou-se, contudo, muito mais pela manutenção das formas de organização social, que encontraram respaldo e legitimidade, atestados pela solidez da linguagem, no interior da qual foi igualmente prescrito o lugar da mulher na história. Circunscrito à revelia o papel axial das mulheres, fora do reino da história, privadas do fazer e do saber, perpetuaram as desigualdades de gênero, marcadas por privilégios e relações desiguais, por definições e classificações estereotipadas do que é ser mulher e do que é ser homem; tais representações foram comumente manipuladas por quem monopolizou com exclusividade o acesso aos estudos, à linguagem e à produção de conhecimentos.


EM BUSCA DE IGUALDADE NO ÉDEN DA CIÊNCIA

Sobre teu corpo, que há dez anos
se vem transfundindo em cravos
de rubra cor espanhola,
aqui estou para depositar
vergonha e lágrimas.
[Carlos Drummond de Andrade, Novos poemas, 1946-1947]

O tratamento concedido à mulher pelas vozes masculinas no discurso rabínico tradicional, bem como pela literatura misógina medieval, desde a patrística cristã, é no mínimo motivo de controvérsia. A despeito desta abordagem ambígua aplicada às mulheres na Bíblia pelos seus intérpretes tradicionais, da qual deriva toda a influência sobre o pensamento ocidental judaico-cristão por séculos, e que sobrevive até hoje na memória coletiva da civilização ocidental, o propósito deste artigo foi apontar o deslocamento axiológico da mulher na história, pressuposto ideológico para manter afastada a voz feminina com a atribuição de papéis sociais e sexuais (ora misóginos ora encomiásticos) sob o controle do discurso dominante (masculino).
Nesse longo processo de dominação masculina no qual a mulher aparece como subproduto do homem, toda vez que se pensa o papel da mulher sob um viés diferente é preciso solicitar uma produção de discursos e saberes tanto mais pertinentes conforme a perplexidade causada pelo deslocamento produzido pelo discurso patriarcal. Talvez por isso seja tão difícil definir o topoi axial da mulher nos dias de hoje. De acordo com Marta Topel, “Não existe uma única definição do papel da mulher que possa ser extrapolado das fontes. Ao contrário, encontramos ao mesmo tempo igualdade e hierarquia, respeito e superioridade, admiração e receio, obediência e insubordinação, ação e passividade, compaixão e insensibilidade. [...] Falta um critério unívoco para definir o lugar dado à mulher no judaísmo”.
Como explicar a falta de definição do status ou do lugar axial da mulher senão admitindo que as tentativas históricas ao longo do tempo, desde a criação, trabalharam para eliminar da história o sujeito — a mulher? A verdadeira causa histórica desta injustiça social consistiu no exercício opressivo do poder patriarcal judaico-cristão que, tratando a mulher como o alvo, o objeto ou a aposta de seu discurso masculino, não permitiu que ela participasse, nem falasse e nem fosse consultada a respeito. Tratando-a como “um texto” e fazendo da mulher um tema ou assunto do qual se pudesse extrair uma essência, excluíram-na, enquanto essência, do palco histórico do mundo.
Desvencilhar-se desta armadilha essencialista(lizante) de pensar e falar sobre as mulheres, retirando-lhes a própria voz em nome de um objeto de discurso qualquer, a meu ver, é um imperativo categórico que se impõe no novo milênio. As vozes falantes, ou seja, as manifestações da fala determinam o entendimento em torno de um assunto e inscrevem-no em seu código lingüístico-cultural, o qual norteia a visão de mundo de seus partícipes. A voz da mulher nem sempre foi atualizada para que, na qualidade de ação, fosse marcada pela história, no entanto, essas ações com marcas na história é que conferem inserção e participação dos sujeitos como seres de cultura, e como seres de cultura os falantes são necessariamente seres de história.
Ora, qual é e como tem sido o lugar conferido à mulher pela cultura? Esta inscrição do sujeito, homem ou mulher, ocorre no discurso do “Outro”, não sendo, portanto, rigidamente fixada, mas passa por significativas modificações ao longo da história, de acordo com as tensões dialéticas em questão. Procuramos refletir sobre o legado cultural judaico-cristão na conformação de nosso ethos machista contemporâneo. Sabemos que o povo judeu inventou o significado da história, preservada pela memória. Mas, dada sua natureza, a memória na cultura judaica é seletiva, pois é impossível lembrar-se de tudo. Com os avanços em direção à sociedade do conhecimento e a ruptura do silêncio no ambiente acadêmico em relação às imagens distorcidas e estereótipos que pesam sobre o feminino, abre-se espaço para o nascimento de um campo específico de pesquisa: “mulher e ciência”.
A título de conclusão, conforme sublinhou Alicia Ostriker, se Ruach (alma) é uma mulher, se Hokhmah (sabedoria) é uma mulher, se Rachmanes (compaixão) deriva do ventre de uma mulher, se o Shabat é uma noiva, se Shehina é filha, noiva, mãe, lua, mar, fé, sabedoria e discurso — então é na linguagem, o local de interpretação, o local de diálogo, interrogação, comentário, riso, local da desobediência sagrada, de teimosia persistente, luta e demanda de benção — é aqui, no lugar da metáfora, que a Mulher aguarda ser reconhecida como igual. Equivale admitir que merece, pois, maior espaço e reconhecimento no Éden da ciência, do que até então lhe foi logrado desfrutar, diga-se de passagem, por força de muita luta e conquistas.

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Notas :::::::::::::

1. Palavra derivada do hebraico שבת, shabbāt, "descanso"; Shabbos ou Shabbes na pronúncia asquenazi é o nome dado ao dia de descanso semanal no judaísmo, sendo observado a partir do pôr-do-sol da sexta-feira até o pôr-do-sol do sábado. De acordo com a tradição judaica, o dia de Shabat é santificado, foi ordenado por Deus como um dia de descanso após a Criação.
2. Fundação Fritz Pinkuss. O Shabat. São Paulo: Congregação Israelita Paulista, 1961, p. 8.
3. Halakhah: caminho que aproxima o homem de Deus; é um sistema de leis e preceitos que rege a vida dos judeus ortodoxos que buscam imitar a imagem do Eterno em sua perfeição.
4. FROMM, Erich. O espírito da liberdade. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1987, p. 100.
5. FROMM, Erich. Op. cit., p. 7.
6. Idem, ibidem, p. 157 (grifo nosso).
7. FROMM, Erich. Op. cit., p. 155.
8. ASHERI, Michael. O judaísmo vivo. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1987, 134-35.
9. ORTNER, Sherry. 1974, p. 69-70. Apud “Diferentes Evas” In: BOYARIN, Daniel. Israel carnal: lendo o sexo na cultura talmúdica. Trad. André Cardoso. Rio de Janeiro: Imago, 1994, p. 117-118.
10. Talmude [heb. Talmúd 'estudo, ensino, doutrina', der. da raiz heb. lamád 'estudar, aprender', e uma abreviatura de Talmud Torá (estudo da Torá)]: é um dos livros básicos da religião judaica, contém a lei oral, a doutrina, a moral e as tradições dos judeus. Surgido da necessidade de complementar a Torá, foi editado em aramaico como um extenso comentário sobre seções da Mixná, reunindo textos do século III até o século V. In: Novo Dicionário Aurélio Século XXI, 2002, verbete “talmude”.
11. “A cultura deve a sua existência às condições sociais da qual ela é o produto, e sua inteligibilidade à coerência e às funções de estrutura de relações significantes que a constituem”. BOURDIER, Pierre. O mercado de bens simbólicos. In: MICELE (Org.) A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1974.
12. TOPEL, Marta F. Feminismo e feminilidade: algumas interpretações sobre o papel da mulher na tradição judaica. In: Simpósio Nacional de História das Religiões, p. 2-3.
13. “Que as mulheres ocupem o lugar da inocência ou do pecado, da castração ou da onipotência, da sexualidade desenfreada e ameaçadora ou de uma vocação ‘natural’ ao pudor e à castidade (conforme a proposta de Rousseau para a educação das moças), depende, em última instância, das ‘práticas falantes’, que por sua vez correspondem a tentativas de responder a deslocamentos ocorridos na sociedade ao longo do tempo — os quais, estes sim, escapam ao controle das vontades dos sujeitos”. In: KEHL, Maria Rita. Deslocamentos do feminino: a mulher freudiana na passagem para a modernidade. Rio de Janeiro: Imago, 1998, p. 29.
14. OSTRIKER, Alicia. O pai aleitador. In: BUCHMANN, Cristina. & SPIEGEL, Celina. (Orgs.) Fora do jardim: mulheres escrevem sobre a Bíblia. Rio de Janeiro: Imago, 1995, p. 64-5.