Aprendendo a se informar...

Informar, discutir e criar numa perspectiva de diálogo entre sujeitos e saberes, visando à promoção da cidadania com base na liberdade de investigação científica e na dignidade da pessoa humana. Visite também: http://clinicadotexto.wordpress.com/

quinta-feira, 27 de março de 2008

DO GÊNESIS AO GÊNERO: UM POTE ATÉ AQUI DE MÁGOAS

INTRODUÇÃO

Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosas duma imagem
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca ri alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doces almas de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!
(A mulher, Florbela Espanca)

O imaginário coletivo constrói-se através de práticas discursivas que expressam as concepções que os povos têm acerca do destino e do seu lugar no universo. Ao longo de sucessivos processos civilizatórios, essas práticas discursivas desempenham importante papel na formação da sociabilidade cultural de homens e mulheres. Com o tempo e o acúmulo de experiências, reforçamos nosso sistema de etiquetas, mais compatível com o passado de “suposições” e idéias preconcebidas, sem questionar imperativos de uma ordem social arbitrária de relações de dominação. Cada um se conforma porque os outros também obedecem.
A representação do papel subalterno da mulher em diferentes formações socioculturais gerou permanências nas relações simbólicas que se configuram no interior de práticas discursivas falo-narcísicas. Tais relações simbólicas, segundo Bourdieu, funcionam como articulações das relações de classe e como tal são instrumentos de poder e dominação: “o campo simbólico reproduz o campo das relações de produções sociais. Os sistemas simbólicos têm a função de ordenação lógica ou de representar coerentemente o mundo e esta função, em uma sociedade de classes, assume um aspecto eminentemente político de legitimação de hierarquias sociais”.
Ao estudar comparativamente a herança das culturas judaica, cristã e grega, observamos que o discurso do Ocidente foi cimentado unilateralmente sob o ponto de vista masculino. Esta matriz androcêntrica sempre foi avessa à participação da mulher na produção do saber, negando-lhe o acesso à prática mais prestigiada de cultura intelectual: o estudo da ciência, privando-a igualmente de expressar sua voz e desenvolver o apreço pelo ato de conhecer. Fortemente calcado na devoção ortodoxa (negação da sedução) e obediência servil, tal legado histórico aprisionou as mulheres ao “monopólio masculino da língua e produção do conhecimento”.
No caso da cultura judaica, a atribuição do papel social feminino vincula-se ao principal pilar do judaísmo: a celebração do Shabat (dia consagrado ao repouso), cuja memória litúrgica do tempo santificado revigora o sistema de crenças do judaísmo. Sob domínio e inscrição do homem, as narrativas bíblicas de tempos passados preservaram a memória judaica da erosão inexorável do tempo, pois tiveram a intenção de resguardar a imagem divina da criação.
Por outro lado, ao mesmo tempo em que a noção de repouso sabático representa transcendência dos limites do tempo histórico enquanto vivência antecipada do tempo messiânico, também é a principal responsável pela estabilidade da organização social da cultura judaica, na medida em que o homem, doravante responsável por seu destino, transforma-se em protagonista da história: sua responsabilidade desloca-se do reino da natureza (ou do cosmos) para o plano da história.
Nesse ponto cabe contestar: se o cuidado e obediência aos preceitos do Shabat foram concedidos à mulher, sob a alegação de que a “graça já lhe pertence” por natureza, não se justifica a privação de seu acesso aos estudos e à ciência. A construção de seu papel axial vinculado à vida doméstica aprisionou o desenvolvimento intelectual de mulheres que se viram praticamente limitadas à condição de filhas, esposas e mães. As atividades de cunho espiritual elevado tornaram-se uma exclusividade masculina, enquanto às mulheres lhe foram negadas o prazer do acesso ao estudo..


O SHABAT E O PAPEL DA MULHER NA CULTURA JUDAICA

Há três pecados que causam a morte da mulher no parto:
o descuido com a separação menstrual, com a oferta da massa de pão
e com a luz da vela [do Shabat]. (Shabat 2, 6)

Na cultura judaica, coube à mulher a tarefa privilegiada de cuidar do dia consagrado ao repouso divino, ao mesmo tempo em que por séculos a fio o acesso aos estudos lhe foi negado. Tal deleite foi conferido somente aos homens (preferencialmente àqueles que foram devidamente circuncidados).
Muito já se escreveu sobre o Shabat, confirmando-lhe posição proeminente na preservação da tradição e da cultura judaicas. Ao lado dos preceitos éticos da santidade familiar e da sexualidade, o Shabat configura-se como um dos três pilares do judaísmo. Segundo A. J. Heschel, “a catedral do judeu é o Shabat” e de acordo com Milgram, “o deleite do Shabat representa o antegozo da completa ventura que aguarda os homens bons no mundo do porvir”. Tendo papel de centralidade na fundação do ethos judaico e na preservação da memória da erosão inexorável do tempo histórico, procuramos abordar este pilar sagrado na perspectiva do infinitivo, sabendo de antemão que o tempo dignificado no judaísmo tem primazia sobre o espaço, e a sua lembrança reforça a natureza do pacto ético firmado entre Deus e o homem, que o faz recordar continuamente o Pai Criador e a própria dádiva da criação.
O “Shabat” representa o sétimo dia da semana, correspondente ao dia que se seguiu à Criação do Universo, quando então o Eterno descansou (Êxodo 20: 8,12). Conforme já cristalizado pela memória da tradição javista criacionista, subentende-se que se retirando para o repouso, Deus não só deu por acabada a sua obra, justificando-Lhe o descanso (Deus é fatigável?) como também se eximiu de responsabilidade sobre o destino do homem. Compete a este seguir o caminho indicado por Deus (Halakhah) ou escolher outro destino para si, pois sua história (eis a novidade) passa a ser fruto das ações hic et hunc; não pode se furtar à tarefa de assumir as responsabilidades correlatas a cada escolha porque nesta luta paradoxal — concebida como resposta humana ao desafio divino — homens e mulheres são igualmente criadores de sua própria história.
Após análise do lugar destacado que ocupa este “microcosmo do cosmo” — um universo complexo e abundante de significados — pretende-se aqui apontar os valores que subjazem à noção mítica do Shabat, na tentativa de compreender como se deu a representação do papel axial (social e sexual) da mulher na cultura judaica: tão próximas do Shabat, porém quase sempre longe dos Estudos.


O PARAÍSO ADIADO: TEMPO DE LEMBRAR... REPOUSAR... ESPERAR

Mais carne, mais vermes; mais propriedades, mais cuidados;
mais mulheres, mais feitiços; mais concubinas, mais impudor; [...]
Mais Torá, mais vida; mais estudo, mais sabedoria;
mais indagação, mais discernimento; mais justiça, mais paz.
(Ética dos Pais - Pirkei Avot, cap. II, 7)


Conforme sugerem os infinitivos do título, numa projeção temporal cíclica da existência, consideramos o Shabat como ponto de partida para compreender o papel axial assumido pela mulher no judaísmo desde a sua fundação. A essência do judaísmo remete a este pilar messiânico, reversível pela memória em ritual que assegura a sua permanência. Cumpre entender o papel de centralidade deste “microcosmo do cosmo” na representação do feminino, pois, conforme adiantado no preâmbulo deste ensaio, a tarefa de “cuidar” do Shabat foi atribuída, exclusivamente, à mulher. O preço? Ficar longe dos estudos.
Para manter a memória como centro vivo da tradição, o Shabat foi o Dia escolhido para lembrar ad infinitum, o repouso que se seguiu à criação. Essa lembrança reiterada atua como pressuposto da cultura judaica que se perpetua através da história. Representa o dia, doravante consagrado (kadósh). É “O dia” escolhido por Deus para repousar, portanto um dia Santo em relação ao tempo, o mesmo tempo no interior do qual Deus não pode estar inserido, pois “Deus é eterno”, não pertence ao tempo e não se ajusta às noções sombrias do homem.
Em meio à tensão dialética entre a vontade de um Criador onipresente e o livre-arbítrio de sua criação, “o homem é livre para escolher seu caminho e deve aceitar as conseqüências de sua escolha”. Não obstante, o ato de escolha foi tão determinante na definição do papel axial de Eva, modelada a posteriori a partir de uma costela tomada de um homem (Gênesis 2, 18-23), quanto na passagem da “queda” de Adão (Gênesis 3, 16), seguida de castigo pela desobediência a Deus. Lembrar é um imperativo para não esquecer e cuja intimação da memória atua tanto a serviço de Deus quanto em benefício de quem recorda o passado: “Lembra-te dos dias antigos, considere os anos das gerações passadas” (Deuteronômio 32, 7). Lembrar é um signo que representa a necessidade de imitar a Deus, e de reviver ciclicamente o tempo santificado: o dia do Shabat: “Lembra-te de santificar o dia de sábado... porque em seis dias o Eterno fez o céu, a terra, o mar... e repousou no sétimo dia... Por isso abençoou o dia de sábado [Shabat] e o consagrou”. (Êxodo 20, 8, 11)
O problema é que tais episódios bíblicos recuperados pela memória, embora vitais na preservação da cultura judaica, conformaram à mulher um estatuto social inferior.
Há, pois, dois valores primordiais que parecem ser inerentes à noção do Shabat, conforme ilustram as palavras de Abraham E. Milgram: “Graças ao Shabat estabeleceu-se solidamente o princípio segundo o qual os homens têm o direito de viverem livres da escravidão imposta pela ininterrupta labuta e de gozarem no seu sentir e pensar a liberdade necessária para que ambos possam desabrochar e refletir a sua origem divina”.
Na tradição da cultura judaica, o Shabat é o dia santo no qual não é permitido qualquer tipo de intervenção do homem no universo material ou espiritual; não se pode fazer nada com o propósito de intervir na natureza, porque esta interferência do homem simboliza o inverso da noção sabática de repouso na qual a paz e o equilíbrio devem ser mantidos. Segundo Fromm, “o homem deve deixar a natureza intocada, não modificá-la de forma alguma, seja construindo ou destruindo qualquer coisa. Mesmo a menor modificação feita pelo homem no processo natural é uma violação do repouso”. O Shabat é o tempo e o templo santificado para o homem.
Na história do povo judeu, a mesma lei que parece aprisionar é a lei que liberta. A manutenção da reverência e respeito ao preceito sabático, condicionando o modus vivendi de seus seguidores, garantiu a perpetuação não só do preceito, mas do próprio povo que buscou por meio dele conquistar a liberdade plena. Longe de representar escravidão e submissão, o Shabat é a razão de existir e, mais, existir na plenitude da liberdade. Conforme defendeu Erich Fromm, o Shabat foi incluído com destaque entre os Dez Mandamentos porque “expressa a idéia central do judaísmo: a idéia de liberdade, de completa harmonia entre homem e natureza e entre homem e homem; a idéia da antecipação do tempo messiânico e da derrota, pelo homem, do tempo, da tristeza e da morte”.
Sem este valor essencial a ele atribuído, o povo judeu não teria subsistido há tantas humilhações e intempéries durante tanto séculos e séculos. Com efeito, o Shabat é um dos responsáveis por garantir a sobrevivência e a identidade do povo judeu no curso de sua própria história, e através da História. Nessa mesma linha de pensamento, Asheri argumenta que “o Shabat é um dos maiores presentes que Deus concedeu aos judeus, e os historiadores do povo judeu repetidamente afirmaram que ‘tanto quanto Israel manteve o Shabat, o Shabat manteve Israel’. O Shabat, sem dúvida, constitui uma das forças mais poderosas na preservação dos judeus como um povo, durante séculos de exílio e perseguição”.
De posse do livre-arbítrio, os homens tomaram para si a tarefa de governar o mundo, criando um tal aparato simbólico que doravante foi sustentado por meio da atribuição de papéis culturais (somente à mulher foi concedido o direito de cuidar do Shabat), de papéis sociais (no casamento, a função da mulher é servir ao homem e cuidar da casa) e, finalmente, papéis sexuais (a mulher foi feita para aliviar a solidão do homem, “para com ele se deitar, e reproduzir”). Segundo Sherry Ortnet, uma das modalidades dessa ideologia androcêntrica presente em diversas culturas (não ocorre somente na cultura judaica) e elaborada unicamente sob o crivo masculino é a representação da inferioridade feminina por meio de “arranjos sócio-estruturais que excluem a mulher da participação, ou mesmo do contato, com o domínio em que se acredita estarem depositados os poderes da sociedade”. As mulheres judias gozam do privilégio nas obrigações sabáticas, mas são terminantemente proibidas de estudar a Torah. (conhecido como Pentateuco ou Lei mosaica, são as escrituras religiosas judaicas).


ÍMPARES ENTRE PARES: GÊNERO E CIÊNCIA

A meu ver, temos um problema ainda insolúvel. Por que as mulheres sempre foram tratadas como objeto residual da história, seja como tema, seja como assunto ou texto, sem direito à voz e ao saber? Afinal, as mulheres representam ameaça ao poder falocêntrico?
Na representação secular do imaginário bíblico, uma vez expulsas do Jardim do Éden após a “queda”, e sem direito à voz, as mulheres foram terminantemente proibidas de alimentar o espírito com frutos da árvore do conhecimento. E de tal modo que os conflitos apenas foram adiados, mas nunca deixaram de existir, estendendo-se para o conjunto das relações sociais, comprometendo o exercício da cidadania plena em diferentes esferas da vida, do trabalho, família, educação, ciência e tecnologia.
Se a representação sociocultural e simbólica da mulher nos grandes sistemas religiosos que monopolizaram o acesso à educação e à produção dos valores plausíveis à lógica de manutenção do poder temporal sacerdotal e eclesiástico corroborou para obliterar a voz das mulheres (na Bíblia e na vida), privando-as do acesso ao conhecimento, fazendo-as desaparecer pouco a pouco até se tornarem objetos residuais da história; e se, por outro lado, for possível identificar que, na produção intelectual e científica atual, ainda ocupam papel adjutório enquanto subproduto, alvo, objeto ou aposta do discurso masculino-patriarcal e hegemônico, presume-se que a manutenção deste discurso técnico-científico-racional e retórico (apelo à objetividade, negação da subjetividade e ausência de paixões) contribui, indubitavelmente, não só para mantê-las ainda mais distantes do acesso ao conhecimento e à informação — na medida em que são reduzidas à categoria de “assunto” sobre o qual se versa e sobre a qual apenas se fala, raramente respeitadas enquanto “sujeito” — bem como também demonstra que tais classificações estereotipadas servem à manutenção das relações de poder em benefício dos agentes produtores de ciência, esmaecendo ainda mais a sua influência, turvando, por fim, qualquer possibilidade real de construirmos a igualdade de gêneros neste século XXI.
Em contato preliminar com bibliografia especializada, nota-se que quase tudo o que se pôde dizer, tanto quanto o que já foi dito sobre a mulher, quase sempre nunca o foi dito pela voz feminina; e o que comumente já foi dito (e mesmo não-dito) sempre esteve em consonância com o discurso do poder — sabidamente manipulado pela hegemonia masculina. É uma onda de supremacia falocêntrica que se projeta sobre o fundo dos fatos parcelados, com sua espuma de passado (vinculada à tradição judaica e cristã) e sua crista de futuro incerto e nebuloso, ainda que tardiamente pautado, arrazoadamente, na igualdade de gêneros, graças à luta de mulheres de todo o mundo.
Com efeito, é sempre observando melhor como tais relações e cristalizações se fizeram sólidas na sociedade que novas representações da mulher se fazem e se farão. O sentido que conferimos ao misterioso poder reservado à sedução e ao feminino ao longo dos séculos teve a sua origem fundada em equívocos construídos pela tradição javista-cristã, passando pela misoginia dos textos medievais para tão-somente no século XX, bem tardiamente, portanto, ser reformulado em termos de igualdade de gêneros.
Muito do que já se disse antes sobre o feminino precisa ser expresso em outros termos, pois não existem “problemas” separados, nem há caminhos verdadeiramente opostos; tampouco há “soluções” que sejam apenas parciais, nem progressos por acumulação e nem opções sem retorno. Vários elementos são constitutivos do Ser. Sendo ramos do Ser, cada um deles pode trazer consigo toda a ramagem, que pode ser descrita ou dita de outro modo.
Linguagem e Poder são duas faces constitutivas da mesma hegemonia androcêntrica que se perpetuou ao longo dos séculos por intermédio de vozes masculinas incontestes na tradição das culturas judaica e cristã. A supremacia masculina conservou-se, contudo, muito mais pela manutenção das formas de organização social, que encontraram respaldo e legitimidade, atestados pela solidez da linguagem, no interior da qual foi igualmente prescrito o lugar da mulher na história. Circunscrito à revelia o papel axial das mulheres, fora do reino da história, privadas do fazer e do saber, perpetuaram as desigualdades de gênero, marcadas por privilégios e relações desiguais, por definições e classificações estereotipadas do que é ser mulher e do que é ser homem; tais representações foram comumente manipuladas por quem monopolizou com exclusividade o acesso aos estudos, à linguagem e à produção de conhecimentos.


EM BUSCA DE IGUALDADE NO ÉDEN DA CIÊNCIA

Sobre teu corpo, que há dez anos
se vem transfundindo em cravos
de rubra cor espanhola,
aqui estou para depositar
vergonha e lágrimas.
[Carlos Drummond de Andrade, Novos poemas, 1946-1947]

O tratamento concedido à mulher pelas vozes masculinas no discurso rabínico tradicional, bem como pela literatura misógina medieval, desde a patrística cristã, é no mínimo motivo de controvérsia. A despeito desta abordagem ambígua aplicada às mulheres na Bíblia pelos seus intérpretes tradicionais, da qual deriva toda a influência sobre o pensamento ocidental judaico-cristão por séculos, e que sobrevive até hoje na memória coletiva da civilização ocidental, o propósito deste artigo foi apontar o deslocamento axiológico da mulher na história, pressuposto ideológico para manter afastada a voz feminina com a atribuição de papéis sociais e sexuais (ora misóginos ora encomiásticos) sob o controle do discurso dominante (masculino).
Nesse longo processo de dominação masculina no qual a mulher aparece como subproduto do homem, toda vez que se pensa o papel da mulher sob um viés diferente é preciso solicitar uma produção de discursos e saberes tanto mais pertinentes conforme a perplexidade causada pelo deslocamento produzido pelo discurso patriarcal. Talvez por isso seja tão difícil definir o topoi axial da mulher nos dias de hoje. De acordo com Marta Topel, “Não existe uma única definição do papel da mulher que possa ser extrapolado das fontes. Ao contrário, encontramos ao mesmo tempo igualdade e hierarquia, respeito e superioridade, admiração e receio, obediência e insubordinação, ação e passividade, compaixão e insensibilidade. [...] Falta um critério unívoco para definir o lugar dado à mulher no judaísmo”.
Como explicar a falta de definição do status ou do lugar axial da mulher senão admitindo que as tentativas históricas ao longo do tempo, desde a criação, trabalharam para eliminar da história o sujeito — a mulher? A verdadeira causa histórica desta injustiça social consistiu no exercício opressivo do poder patriarcal judaico-cristão que, tratando a mulher como o alvo, o objeto ou a aposta de seu discurso masculino, não permitiu que ela participasse, nem falasse e nem fosse consultada a respeito. Tratando-a como “um texto” e fazendo da mulher um tema ou assunto do qual se pudesse extrair uma essência, excluíram-na, enquanto essência, do palco histórico do mundo.
Desvencilhar-se desta armadilha essencialista(lizante) de pensar e falar sobre as mulheres, retirando-lhes a própria voz em nome de um objeto de discurso qualquer, a meu ver, é um imperativo categórico que se impõe no novo milênio. As vozes falantes, ou seja, as manifestações da fala determinam o entendimento em torno de um assunto e inscrevem-no em seu código lingüístico-cultural, o qual norteia a visão de mundo de seus partícipes. A voz da mulher nem sempre foi atualizada para que, na qualidade de ação, fosse marcada pela história, no entanto, essas ações com marcas na história é que conferem inserção e participação dos sujeitos como seres de cultura, e como seres de cultura os falantes são necessariamente seres de história.
Ora, qual é e como tem sido o lugar conferido à mulher pela cultura? Esta inscrição do sujeito, homem ou mulher, ocorre no discurso do “Outro”, não sendo, portanto, rigidamente fixada, mas passa por significativas modificações ao longo da história, de acordo com as tensões dialéticas em questão. Procuramos refletir sobre o legado cultural judaico-cristão na conformação de nosso ethos machista contemporâneo. Sabemos que o povo judeu inventou o significado da história, preservada pela memória. Mas, dada sua natureza, a memória na cultura judaica é seletiva, pois é impossível lembrar-se de tudo. Com os avanços em direção à sociedade do conhecimento e a ruptura do silêncio no ambiente acadêmico em relação às imagens distorcidas e estereótipos que pesam sobre o feminino, abre-se espaço para o nascimento de um campo específico de pesquisa: “mulher e ciência”.
A título de conclusão, conforme sublinhou Alicia Ostriker, se Ruach (alma) é uma mulher, se Hokhmah (sabedoria) é uma mulher, se Rachmanes (compaixão) deriva do ventre de uma mulher, se o Shabat é uma noiva, se Shehina é filha, noiva, mãe, lua, mar, fé, sabedoria e discurso — então é na linguagem, o local de interpretação, o local de diálogo, interrogação, comentário, riso, local da desobediência sagrada, de teimosia persistente, luta e demanda de benção — é aqui, no lugar da metáfora, que a Mulher aguarda ser reconhecida como igual. Equivale admitir que merece, pois, maior espaço e reconhecimento no Éden da ciência, do que até então lhe foi logrado desfrutar, diga-se de passagem, por força de muita luta e conquistas.

Referências bibliográficas

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Notas :::::::::::::

1. Palavra derivada do hebraico שבת, shabbāt, "descanso"; Shabbos ou Shabbes na pronúncia asquenazi é o nome dado ao dia de descanso semanal no judaísmo, sendo observado a partir do pôr-do-sol da sexta-feira até o pôr-do-sol do sábado. De acordo com a tradição judaica, o dia de Shabat é santificado, foi ordenado por Deus como um dia de descanso após a Criação.
2. Fundação Fritz Pinkuss. O Shabat. São Paulo: Congregação Israelita Paulista, 1961, p. 8.
3. Halakhah: caminho que aproxima o homem de Deus; é um sistema de leis e preceitos que rege a vida dos judeus ortodoxos que buscam imitar a imagem do Eterno em sua perfeição.
4. FROMM, Erich. O espírito da liberdade. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1987, p. 100.
5. FROMM, Erich. Op. cit., p. 7.
6. Idem, ibidem, p. 157 (grifo nosso).
7. FROMM, Erich. Op. cit., p. 155.
8. ASHERI, Michael. O judaísmo vivo. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1987, 134-35.
9. ORTNER, Sherry. 1974, p. 69-70. Apud “Diferentes Evas” In: BOYARIN, Daniel. Israel carnal: lendo o sexo na cultura talmúdica. Trad. André Cardoso. Rio de Janeiro: Imago, 1994, p. 117-118.
10. Talmude [heb. Talmúd 'estudo, ensino, doutrina', der. da raiz heb. lamád 'estudar, aprender', e uma abreviatura de Talmud Torá (estudo da Torá)]: é um dos livros básicos da religião judaica, contém a lei oral, a doutrina, a moral e as tradições dos judeus. Surgido da necessidade de complementar a Torá, foi editado em aramaico como um extenso comentário sobre seções da Mixná, reunindo textos do século III até o século V. In: Novo Dicionário Aurélio Século XXI, 2002, verbete “talmude”.
11. “A cultura deve a sua existência às condições sociais da qual ela é o produto, e sua inteligibilidade à coerência e às funções de estrutura de relações significantes que a constituem”. BOURDIER, Pierre. O mercado de bens simbólicos. In: MICELE (Org.) A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1974.
12. TOPEL, Marta F. Feminismo e feminilidade: algumas interpretações sobre o papel da mulher na tradição judaica. In: Simpósio Nacional de História das Religiões, p. 2-3.
13. “Que as mulheres ocupem o lugar da inocência ou do pecado, da castração ou da onipotência, da sexualidade desenfreada e ameaçadora ou de uma vocação ‘natural’ ao pudor e à castidade (conforme a proposta de Rousseau para a educação das moças), depende, em última instância, das ‘práticas falantes’, que por sua vez correspondem a tentativas de responder a deslocamentos ocorridos na sociedade ao longo do tempo — os quais, estes sim, escapam ao controle das vontades dos sujeitos”. In: KEHL, Maria Rita. Deslocamentos do feminino: a mulher freudiana na passagem para a modernidade. Rio de Janeiro: Imago, 1998, p. 29.
14. OSTRIKER, Alicia. O pai aleitador. In: BUCHMANN, Cristina. & SPIEGEL, Celina. (Orgs.) Fora do jardim: mulheres escrevem sobre a Bíblia. Rio de Janeiro: Imago, 1995, p. 64-5.

Um comentário:

Anônimo disse...

Isso é que é gostar de mulher!!!!